terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Memórias Sem Maquiagem

“Nascido rico não tive jamais a preocupação burguesa de me fazer herdeiro de uma posição social, ou mesmo de conquistar tal posição. Sou um aventureiro por criação e um amante por formação... Identifiquei-me com os que, carecendo de recursos materiais e, muitas vezes, culturais, sofriam e lutavam pela sobrevivência dentro da vida noturna. Artistas, músicos, cabaretiers, crupiês, garçons, porteiros, mulheres de amores sem volta, humildes serventes. Gente que se torna mais querida quando começamos a entender os mistérios da noite”.

A boemia é uma parte da vida que sempre se alimenta de estórias, mas ela própria permanece nas sombras da história, até que alguém resolva fazer “justiça” com os tempos e abrir o jogo. É aí que se fica sabendo de cobras e lagartos. Carlos Machado nos brindou em 1978 com suas memórias de alcova, cabarés, music-halls, jogatinas, atrizes, noitadas, shows, gigolotagem, etc. Nascido José Carlos Penafiel Machado em Porto Alegre, em 1908, era apelidado “O Rei da Noite", "El Rey de La Noche", "Machadito”, e outros nomes de ocasião. Perdeu a mãe com 1 ano de idade e foi criado pela avó. Estudou o primário em colégio de freira, passou para o colégio jesuíta e largou tudo aos 21 anos de idade para correr o mundo. Teve sortes, azares, amores e paixões e, por fim, se recolheu do mundo artístico leiloando o patrimônio e juntando o que restou da sorte de ter sobrevivido a um acidente de automóvel na serra de Caxias do Sul. O show bizz vinha se espatifando há um bom tempo. Sem mais espaço para os grandes shows, depois que a TV roubava a vida social à passividade dos lares, pendurou as chuteiras e aos 70 anos ditou sua biografia ao genro Paulo Pinho. Com ele morria uma época.

Na década de 20, Porto Alegre era uma cidade calma e tranqüila durante o dia, mas sofria radical transformação à noite. “Os Caçadores era o maior clube noturno da época em toda a América Latina. Os cabarés, as casas de jogos – o carteado, bacarás, roletas e bilhares — onde o dinheiro corria solto em grandes apostas, cafés que sempre terminavam num pano verde, a prostituição, os prostíbulos, o meretrício quase oficializado e grande comércio de tóxicos faziam de Porto Alegre um dos mais importantes centros de depravação do Brasil”.

“A partir das cinco horas eram abertas ao consumidor as importantes pensões de mulheres, sob a orientação de Aurélia, Gina e Nineta, as mais famosas da época; ponto de reunião de fazendeiros, políticos e militares. Eram casas que conheciam profundamente a história política e financeira de Porto Alegre... Polacas, francesas e argentinas, já sofridas pelo tempo, chamavam-nos com o tradicional ‘tu viens, chéri?’ enquanto o cheiro de permanganato tudo impregnava” (p16).

Este período era chamado de prostituição de porta e janela. O trottoir era proibido, mas era permito às prostitutas ficarem nas janelas e portas dos sobrados requisitando clientes. “O problema do meretrício atingiu tal ponto que as pessoas mais influentes da época reuniram-se visando alcançar uma solução. A proposta mais bem votada foi a de concentrar as prostitutas na Avenida 13 de maio, transformando-a, assim, numa rua de comércio exclusivista... Não conhecíamos assaltos e eram poucos os crimes passionais, apesar de andarem todos devidamente armados. Nas chapelarias, entradas de cabarés, casas de jogos e nos bilhares, recebia o freguês uma ficha numerada para seu chapéu e sobretudo, e outra, de cor diferente, para o revólver mas raramente fazia uso dela. Sentia-se, simplesmente, mais forte e mais seguro.” (p17). Todo gaúcho andava com sua arma na cintura, este hábito que antecedeu à revolução de 30 serve de ponderação para fazer uma comparação com a nossa época, onde o famigerado Estatuto do Desarmamento em vigor parece mais uma invenção de garantia de impunidade para marginais do que um eficaz instrumento de segurança social. Quando memorialistas e escritores associam uma época de baixa criminalidade com a liberdade de andar armado, o mínimo que se deveria fazer é prestar atenção na moralidade de nossa própria época.

A vida boêmia, feita de anarquia, extravagâncias e beberagens, era sublimada pela caça às mulheres, a paixão pela música e dança e pelas novidades que apareciam com as companhias de dança e espetáculos que circulavam pelo continente. Dançavam o charleston, o black-bottom e o passo doble no Caçadores. Mas também, os bolerões da época, tipo Noche de Reys, Adiós Muchachos, Garufa, Sentimiento Gaucho e Mi Buenos Aires Querido.

O Clube Caçadores

“Quando se conta o que foi o cabaré Caçadores, a grande maioria afirma ser tudo mania de grandeza de gaúcho, que nada daquilo realmente existiu, que não passou de mais uma lenda da vida noturna de Porto Alegre. Mas, tendo vivido durante seis anos de minha vida, quase todas as noites, no Caçadores, testemunho com firma reconhecida de velho boêmio que, como categoria, estilo, atrações, profissionalismo dos empregados, foi um dos melhores clubes noturnos que conheci em todo o mundo.”

“Durante a Primeira Guerra Mundial, Luiz Alves de Castro abria em Porto Alegre, mais precisamente na rua Nova, depois Andrade Neves, um clube fechado com o nome de O Fomento. Decoração em estilo inglês, salas de jogo e maravilhoso serviço de bar e restaurante, era freqüentado exclusivamente por sócios selecionados entre os poderosos e gastadores de então. Lá estavam Nico Chaves, Oswaldo Aranha, Urbano Garcia, Flores da Cunha, Victor Bastian, Maurício Cardoso e muitos outros.” “Fechado O Fomento, foi aberto em 1921, no mesmo local, o Clube dos Caçadores, também de propriedade de Luiz Alves de Castro, já conhecido como Capitão Lulu, tendo como sócio o português José Carvalho...”

“Os salões do Caçadores eram todos revestidos de madeira de lei; de seu teto pendiam lustres de cristal, suas mesas cobriam-se com toalhas que combinavam com o estofamento das cadeiras e cortinas. Tudo formando um conjunto do maior bom gosto. A sala do cabaré sugeria um anfiteatro, tendo ao centro uma pista onde se apresentavam os números de variedades. Uma passagem em forma de túnel ligava o cabaré às salas de jogo. Em volta da sala central foi construída uma galeria onde ficavam os luxuosos reservados, para os que faziam questão de ir ao Caçadores mas que lá não podiam ser vistos.”

“O Caçadores tinha a melhor cozinha e o mais perfeito serviço da cidade: copos de bacará, talheres de prata, Veuve Clicquot custando cinqüenta mil-réis; filé com fritas, cinco mil e cerveja Oriente, três mil-réis.... Abria às nove da noite a funcionava até as 4 da manhã. As variedades começavam à meia-noite.” (p21-22)

Na sua adolescência, tinha um grupo que se dedicava à malandragem. Praticavam a gigolotagem, cobrando comissões de prostitutas por programas arranjados ou simplesmente por freqüentar os locais da alta madrugada (praça XV) quando os clubes fechavam e as prostitutas passavam nos cafés antes de se recolherem. Era de temperamento rebelde, e isto tinha influência na escola. Foi aluno de latim de Alberto Pasqualini, que nesta época era jesuíta, e colega de Rui Cirne Lima, Vianna Moog, Breno Caldas, Homero Jobim, e muitos outros nomes que ficariam conhecidos nas décadas seguintes.

Mas como jogador vivia o dilema da eterna falta de dinheiro que era o problema do grupo. De espírito apaixonado, arranjou emprego de relações públicas em uma companhia de revistas que passava por Porto Alegre, só para ficar de amante da mulher do administrador e saiu em viagem pelo interior do Estado onde começou a se interessar pelo aprendizado do show-business, que mais tarde iria ser a sua carreira.

Existem grupelhos que quando se formam na juventude ficam de tal forma cúmplices dos mesmos delitos, que criam um anedotário especial dos pequenos golpes, das transgressões forçadas pelas carências e espírito de fuzarca.
“O jogo e as noitadas acabavam com nosso dinheiro e, logicamente, com nosso crédito. Estabeleceu-se em Porto Alegre um tal de Gomes, com as melhores credenciais – ‘a tesoura de ouro de Lisboa’. Encomendei o terno-sensação. Quando pronto, o Gomes recusou-se a entregá-lo enquanto não recebesse o devido pagamento. Como pagamento era o que não havia, ficou minha pequena obra de arte exposta na vitrine, com o desabonador cartão preso à lapela: ‘Vendido ao Sr. Carlos Machado’. Tal publicidade negativa pedia imediata solução e nosso grupo, que era muito bem relacionado, começou a espalhar que eu não tinha retirado o terno somente porque estava mal cortado. Fui procurado pelo Gomes, que se prontificou a presentear-me com o terno desde que cessasse a campanha negativa contra sua recém-estabelecida oficina. Assim foi feito, para felicidade total de ambas as partes”. (p26)

Sobre um amigo, alcunhado de Sans Chapeau: “considerava a boemia como verdadeira profissão, tratando-a com toda a seriedade. Constantemente aparecia com listas de rifas e sorteios, que nunca se realizavam. Sua lábia, sua maneira sutil de pedir, seus modos finos e educados muito facilitaram sua obtenção do numerário indispensável para exercer com toda a dignidade a árdua vida de boêmio catedrático. Certa vez pediu a um conhecido um empréstimo de duzentos mil-réis. A vítima, tentando salvar uma parte de seu dinheiro, disse-lhe que somente dispunha de cem mil-réis. Sans Chapeau, sem hesitar: ‘Aceito os cem. Os outros restantes me entregas amanhã. Até o fim da semana te pago tudo’. Passados uns dez dias, passeava o credor em companhia de pessoa da maior responsabilidade pela Rua da Praia, em hora de grande movimento, quando do outro lado da rua ouviu Sans Chapeau que gritava: ‘e então, quando é que vais me entregar os outros cem? Não posso esperar mais’. Tentando diminuir a embaraçosa situação, atravessou o credor a rua e explicou a Sans Chapeau que não poderia lhe emprestar o restante mas, em compensação, ficava liquidada a dívida. Já ia se afastando quando ouviu a tirada final do meu amigo de tantas noites iluminadas: ‘Isto não está certo. Confiei em ti e tive grande prejuízo, porque havia outra pessoa disposta a me financiar. Aprendas. Nunca prometas o que não podes cumprir’ “. (p29)

Esta situação não se podia manter indefinidamente, até porque a turma era obrigada a se dissolver. Machado entrava em recesso e se dedicava ao clube de remo, dormia cedo, treinava de madrugada, fazia uma superalimentação. Conquistou, com isso, um prêmio no remo, esporte praticado por famílias ricas, onde somente a alta sociedade aparecia para prestigiar as competições. Alta? Nem sempre: em uma das competições estava desesperadamente 50 metros atrás do vencedor quando, passando pela raia, ouviu uns gritos de ‘Dale Machadito’: “eram as prostitutas, que elegantemente trajadas e situadas ao lado do trapiche das autoridades, ofereciam a linda prova de solidariedade humana” (p30).

Ao completar 21 anos de idade, recebeu a herança de sua mãe. Não deu outra: embarcou para a Argentina louco para conhecer “unas muchachas”. Naquela época a influência portenha era grande: o gaúcho falava gírias argentinas, vivia focado no que acontecia em Buenos Aires e sentia-se parte dos pampas. Tinha contatos com brasileiros que residiam em Buenos Aires, no comércio de erva-mate. Meteu-se em jogo de sinuca, começou a perder dinheiro graúdo e, para dar um tempo ao próprio vício, embarcou para o Chile de trem, pois na época não havia avião de carreira. Sua personalidade pode ser descrita como alguém que herdara do índio a preocupação exclusiva pelo presente. Não possuía o sentido de futuro, tão conspicuamente observado por Saint-Hilaire de passagem pelo Rio Grande. Achava-se um irremediável fatalista, alguém a quem somente o presente interessava. Voltou a Porto Alegre via Mar Del Plata, Carrasco, Pocitos, Maroñas, sempre tentando no pano verde. Chegou pelado e foi direto para o Caçadores encontrar os amigos. Contou a viagem nos intervalos do bacará.

A Revolução de 30

Retornando a uma nova fase de vida esportiva, certa tarde, remando no Guaíba, junto à Praia de Belas ouviu disparos de canhões. Era a revolução de 30 que começava. Retornou para contornar o Gasômetro e estacionar no Navegantes, mas decidiu atracar antes, pois sua casa ficava na Duque de Caxias, junto à praça do Portão. Ao passar na frente do quartel-general escutou a voz de um sargento que o chamava. Era João Alberto, que o aconselhou a ancorar o skiff lá mesmo. Como estivesse de calção e a tarde caía com a temperatura, disseram-lhe que dificilmente chegaria em casa, devido à resistência do Sétimo Batalhão contra os insurgentes, que ficava no caminho. Levaram-no ao almoxarifado, ofereceram uma farda de soldado e, misteriosamente, tornou-se o primeiro voluntário da Revolução!

Cessada as hostilidades em Porto Alegre, com a vitória dos insurgentes, embarcou com os demais voluntários de trem com destino a Santa Bárbara, entroncamento onde as tropas comandadas por Batista Luzardo deveriam aguardar os reforços da fronteira. Seguiu para o Rio, parando em Itararé, onde se encontrava a frente inimiga legalista que apoiava Washington Luis, então presidente eleito em exercício. Foi testemunha ocular da batalha de Itararé, a batalha que não houve, pois o exército legalista se retirara na véspera do combate. Embarcou para o Rio de Janeiro sonhando com grandes conquistas. Atou o cavalo no obelisco e logo arrumou uma turminha para animar as farras na capital federal. De fato, a gauchada toda se mudava para o Rio. Com Getúlio no poder, não faltavam cargos para acomodar os correligionários heróis da revolução.

Estavam lá os donos do Caçadores, conhecidos, amigos, boêmios, empresários, políticos, advogados, uma enorme quantidade de tchês se ouvia pelas ruas do Centro. Iniciava-se o ciclo dos ponchos e bombachas junto à pecaminosa zona do Catete. Passeatas a cavalo, revivescências das tradições, tudo aquilo foi ficando ridículo, até que certa noite alguns gaúchos apareceram amarrados ao obelisco. Depois de algumas repetições da insolência e da pancadaria conseqüente ao ato praticado pela guarda alvinegra do Botafogo, tudo voltou ao normal dentro da Aliança Liberal. Na verdade, havia muitos voluntários que eram homens simples do campo, que, passada a euforia da capital, o que queriam mesmo era voltar para seus pagos, e só o fizeram depois de conseguir dinheiro emprestado dos correligionários.

De sua parte, tinha também a ambição de um cargo importante, desses que não se precisa trabalhar e que tão bem se conservam no Brasil. Queria uma posição de fiscal do imposto de consumo, mas a prudência revolucionária negou-lhe o provimento, para felicidade geral da nação, e ofereceu-lhe em troca o cargo de comissário de polícia. Recusou de pronto e tendo recebido ajuda da avó, preferiu continuar sua vida de boêmio e jogador. A invasão gaúcha tinha inflacionado o preço das “francesinhas”, que levantaram de 200 para 500 mil-réis o custo do programa. Muitas voltaram milionárias para a França, confirmando a máxima de que as revoluções sempre enriquecem os bem-posicionados nas novas oportunidades que surgem.

Passou o ano de 31 de farra na capital federal trabalhando como guia turístico de gaúchos que vinham ao Rio tomar posse dos novos cargos. Isto tinha sido um arranjo feito na noite. Levava os turistas a comer em bons restaurantes, “tomar aperitivos no bar do (Copacabana) Palace e apostar em seus salões. A noite terminava no Assyrio, onde lhes apresentava uma amiga que depois me dava uma comissão sobre o que tinha sido cobrado do meu cliente. Ganhava para viver de maneira simples, mas já não precisava pagar as profissionais – éramos sócios – e me mantinha sempre em evidência, aparecendo nos bons lugares da moda”. (p40)

Mas não deu muito certo a nova vida. Gastava mais do que ganhava e logo precisou do socorro paterno. Pediu dinheiro para voltar a Porto Alegre, mas não resistiu aos 2 contos de réis recebidos e se entregou ao jogo. Acabou com apenas 100 mil réis. Voltou ao Palace com seu amigo Pires do Rio e fez um último plano de jogo na roleta. Então houve o milagre. Começou a ganhar uma atrás da outra no setor que havia escolhido e depois de 22 vitórias, de uma noite toda, arrematou 30 contos de réis. Era uma pequena fortuna. Ficou pasmo pela excitação e tomou uma decisão impulsiva: largar para a Europa.

Em Paris

Teve sorte de embarcar no mesmo navio em que também embarcava a Comédie Française de passagem pelo Rio. Logo arrumou uma amante para treinar o francês do lado materno e foi aperfeiçoando nas paradas do caminho e, sobretudo, dormindo com a própria língua, sua receita de aprendizado rápido não muito popular nos dias atuais. Considerando que os tripulantes, também franceses, não eram lá muito educados, logo aprendeu o dialeto dos malandros, condição indispensável para o trânsito boêmio das noites parisienses.

A Paris dos anos 30 era peculiar por encantar a toda a Europa culta. Para uma pessoa cujo foco estava na diversão, na vida noturna, logo tratou de se posicionar para o bas-fond e os novos amores. Encontrou em Pigalle seu território particular, pois pertencia a “contrabandistas, traficantes, prostitutas, gigolôs e pederastas”.

Para sustentar a nova vida, inscreveu-se em uma escola de dança. Mas, mudando de bairro, começou a conquistar mulheres fora da maldição do ‘faire l’amour’ regiamente pago. Vestido elegantemente e com 23 anos de idade, não faltaram companhias. “Aprendi a ser simpático, comunicativo e envolvente. Ter senso de humor sempre ajuda e, acima de tudo, ser educado em todos os momentos e em todas as circunstâncias” (p49). Esta fórmula simples era facilmente confirmada pela expansão do relacionamento, os convites que se desdobravam dos contatos, e naturalmente dos amores desfrutados.

Para desfrutar de percepção social, costumava relacionar-se com garçons e gerentes, e cultivava o hábito de chamar as pessoas pelo nome, para que a recíproca fosse verdadeira e assim as pessoas que o acompanhassem podiam sentir-se impressionadas com o ‘bonjur Monsieur Machado!’ Em pouco tempo conheceu dois monstros sagrados da música universal: Cole Porter e Ernesto Lecuona. Na orquestra deste último, conseguiu um contrato para contracenar com Juanita na dança e também para tocar maracas. Mas se envolveu com Miss Grécia, depois de estar de amores com Juanita, e não foi perdoado pelos ciúmes da cubana. Perdeu o emprego e teve que recomeçar. Tentou o cinema, mas só conseguiu umas pontas em filmes de René Clair e Pierre Colombier. Até que conheceu um casal de americanos que o convidou para morar em sua casa. Não durou muito, porque a anfitriã sofreu um acidente de carro e morreu. O viúvo deixou Paris e neste meio tempo Machado conseguiu um emprego com o pessoal do Cottom Club de New York, que se apresentava no Folie Bergère. Pouco depois, outro emprego de um mês para contracenar com a bailarina russa Irene Obolenzkaya. Com algumas apresentações em Londres, seu nome começou a ser apontado nos jornais. Começou a sentir que poderia vencer em Paris e se entregou de corpo e alma ao trabalho mirando o ‘Casino de Paris’. A oportunidade veio com o retorno de Maurice Chevalier de Hollywood, onde estivera filmando durante 7 anos. Se meteu entre os pretendentes ao título de dançarino e na fila de espera conta um fato interessante do mundo musical parisiense: “enquanto esperava, reparei em algo que me intrigava profundamente. Nos bastidores, ficava um balde de gelo. As modelos que estavam sendo escolhidas para apresentações de nu-artístico, antes de entrarem em cena, pegavam um pouco de gelo e passavam nos seios. A técnica realmente funcionava. Em contato com o frio, os seios tornavam-se rígidos e transformavam-se em verdadeiros nichons de pucelles”. (p61)

Foi contratado porque Maurice Chevalier achou-o parecido com Gary Cooper. A partir de então era o Machado do Casino de Paris.
A platéia de Paris é uma coleção de personalidades e famosos da França e dos Estados Unidos. As revistas do Casino (fundado em 1912) eram um sucesso internacional. Os produtores de toda a parte do mundo se deslocavam a Paris para as novidades da arte do music-hall. A carreira de Carlos Machado decolou para um artista de pequenas apresentações. As colunas sociais começaram a falar deste brasileiro engajado no Casino, um local disputado por bailarinos de todo o mundo. As histórias de mulheres, ménages a trois, disputas sexuais, corneios, vida mundana e casos de artistas se sucedem divertindo o leitor. De repente, uma paixão com uma dama americana, viúva e herdeira de um império industrial, a rainha do chiclete. Machadinho cai de amores pela lady, andam de mãos dadas por Paris, ela sempre acompanhada de um séquito de subordinados até que mais tarde parte para New York. Combinam encontro semanas depois, para onde ele deveria seguir de navio, pois precisava ficar em Paris ainda algumas semanas para acabar o contrato vigente. Neste intervalo, se envolve com Mila Pareli, famosa manequim e uma das mulheres mais belas de Paris, esquece a americana, anda pela Riviera, gasta todo o dinheiro que tinha, volta a Paris, já morando junto com Mila, depois que esta consegue um emprego em um show, sente-se diminuído, fica mergulhado em dúvidas, e num rompante, vende todos seus pertences e foge para New York. Chega lá e é recebido com muita educação e muita frieza. Fica meio desnorteado. A madame sai com ele, mas nada acontece, sempre cercada por uma muralha de gente, até que depois de alguns meses de aflição passa por New York, vindo do Canadá Mistinguette, uma das mais famosas artistas do music-hall, ex-amante de Chevalier, veterana e comandante de uma companhia e que foi direto ao assunto: iria montar um espetáculo no ano seguinte, 1937, em Paris e queria Machado com ela, pois já o conhecia de vista do Casino de Paris.

De volta a Paris, Machado se une a Mistinguette, ou Mist para os íntimos, no teatro Margot, e se envolve nas filmagens de ‘Jeune-Fille d’Occasion’, fazendo um papel de bailarino e gigolô, algo totalmente dentro do seu figurino real. Os shows com Mist foram todos um sucesso. Sua carreira estava no auge, quando encerrando uma temporada, Mistinguette resolve fazer uma excursão pela América Latina. Passam pelo Rio de Janeiro, onde o navio fica apenas 6 horas. Como paternaire de Mist, dão entrevistas a jornais e revistas, não sobrando tempo para ele sequer fazer contato com os velhos amigos. Em Paris Machado vivia isolado, não tinha amigos brasileiros e não freqüentava o consulado nem as atividades sociais e culturais da Embaixada. Simplesmente não sabia o que acontecia com a velha pátria, mas os jornais queriam saber quem era aquele brasileiro que passou pelo Rio. Era um nome que nunca tinha se exibido em qualquer teatro brasileiro, nem mesmo havia comparecido a um show de rádio, dos tantos que havia então. Um total desconhecido.

Machado embarca para Buenos Aires com Mist, mas na capital portenha começa a sentir-se fraco, adoentado. Procura um médico, faz radiografias e descobre que estava com tuberculose. Isto significa mudar completamente os planos. Conta seu drama para Mist e parte para o Rio, onde se instala em Laranjeiras e, a pedido de um médico particular, começa o tratamento, que consistia em fincar agulhas no pulmão, chamado de pneumotórax, uma técnica que antecipou a penicilina, cuja descoberta, justamente por aquela época, ainda não era medicamento disponível.

Era algo que pressupunha adeus à vida noturna. Mas Machado não podia ficar sem fazer nada, e fazer alguma coisa era procurar os velhos amigos. Quando Mistinguette retorna para o Rio, Machado ainda consegue autorização do médico para uma única apresentação ao seu lado, no número ‘Je Cherche un Millionnaire’, versão da canção americana ‘I’m Feeling Like a Million’. Desobedeceu e ficou 4 semanas cumprindo moderadamente seu contrato e “conhecendo a sociedade do Estado Novo – freqüentador assíduo da Urca e do Copacabana Palace –, revendo diversos amigos do velho ginásio Anchieta, da Rua da Praia e do Caçadores, todos eles ocupando altos postos no governo e merecendo sempre as melhores mesas e a atenção especial de maîtres e garçons”. (p99) O empreguismo do Estado Novo não tinha nada de diferente do atual.

 

Retorno ao Rio

Mist retorna a Paris e Machado a Laranjeiras, pretendendo se recuperar e voltar para Paris. Um mês depois irrompia a Segunda Guerra e o sonho acabou para sempre. Mais uma vez desempregado e sem profissão. Mas os amigos de Porto Alegre vieram ao seu socorro. Machado vai para Niterói a convite do capitão Lulu, o antigo proprietário do Caçadores, morar no Hotel Casino Icaraí, rival da Urca e inaugurado em 1939.

As barcas da Cantareira faziam a ligação Rio-Niterói e os artistas tinham lanchas especiais que os deslocavam de um para outro cassino, pois havia shows em Icaraí e na Urca na mesma noite. Uma loucura! A primeira coisa que Machado notou com as orquestras brasileiras é que não participavam do espetáculo. Na sua concepção “parisiense”, as orquestras deveriam executar para serem vistas por todos os que não estão dançando, fazendo parte do espetáculo.

Estas orquestras ficavam na sala de jantar dos hotéis e cassinos, chamada grill-room, e serviam de animação para os jantares dançantes. Era necessário um animador despertar interesse visual com figurinos e decoração e fazer com que a orquestra fosse um show à parte. Surgiu a Brazilian Serenaders, que haveria de marcar época dali para frente em todos os acontecimentos marcantes do show-bizz brasileiro. Mas havia um detalhe: Machado era um organizador, não entendia de música, e embora fosse apresentado como ‘maestro’, seu trabalho mesmo era coreográfico, de escolher figurinos, intervir na decoração, selecionar as músicas, e comandar toda a parafernália auxiliar do espetáculo.

A vida social do Rio não se limitava à cidade. Havia todo um circuito que ia do Tênis Clube de Petrópolis, do Hotel Quitandinha, à Urca de Poços de Caldas, ou ao Icaraí de Niterói. Mas foi no Casino da Urca que se notabilizou, até porque este era o mais importante, rivalizando com o Copacabana Palace. Em pouco tempo, a Brazilian Serenaders passou a ser a orquestra oficial do Estado Novo; “abrilhantamos com nossa alegria, simpatia, comunicabilidade e, principalmente, com o talento artístico de nossos músicos, as noites despreocupadas de uma vida que corria sem muitos problemas, onde o dinheiro do jogo movimentava com força indescritível toda uma poderosa máquina que buscava dar a todos apenas diversão”. (p103)

Como promoteur, Machado sentou na mesa de Walt Disney, Orson Welles, Douglas Fairbanks Jr, Errol Flyn, Ava Gardner, Ray Ventura, Bing Crosby e tantos outros que desembarcaram no Rio nos anos 40. Os integrantes do Brazilian Serenaders, na fase inicial, eram Dick Farney, Walter Rosa, Laurindo de Almeida, Fafá Lemos, Russo do Pandeiro (que também estava tocando na Europa antes da guerra), Gilberto e Raul Gagliardi e muitos outros. Foram lançados sucessos como “Amélia”, “Atire a Primeira Pedra”, “Praça Onze”, “Nega do Cabelo Duro”, “O Cordão dos Puxa-Sacos”, “Caminito”, “Maria Candelária” e muitos outros.

Como em Petrópolis concorriam todos os milionários para as férias de verão, o Tênis Clube era o reduto dos desfiles da aristocracia do país. Trabalhar nos salões, na posição de Machado, era de certa forma compartilhar aquele meio. Getúlio, hospedado no Palácio do Itaboraí, costumava circular pelos eventos.

Segundo Machado, “um acontecimento curioso era o passeio matinal de Getúlio, acompanhado de sua segurança. Os bajuladores conheciam detalhadamente o itinerário presidencial e, por estas coincidências incríveis, estavam sempre saindo de suas casas, de seus carros ou da casa de amigos exatamente no momento em que o presidente passava com seu terno claro, seu chapéu ‘gelô’ e seu inconfundível charuto. O cumprimento ficava garantido e devo dizer que em matéria de perfeição coreográfica em nenhuma parte do mundo vi tanta noção de timing como o demonstrado pela sociedade carioca!” (p107)

Mas como Machado é um homem da noite, e seu testemunho está ligado à vida social, ele não se contém: “na temporada de verão, quase todos os maridos desciam durante a semana partindo para a árdua vida de ‘cigarras’ no Rio de Janeiro, deixando as mulheres em Petrópolis. Sexta de noite voltavam os exemplares esposos, exaustos da laboriosa semana na capital. Mas vi também alguns rapazes mais espertos que preferiam ficar na serra de segunda a sexta, para consolar as infelizes ‘formigas’ abandonadas“. (p108)

“Benjamin Vargas, irmão de Getúlio e apelidado de Coronel Bejo, era quem dava as maiores gratificações à minha orquestra, mas fazia-o de uma maneira toda peculiar e que sempre nos trazia enormes problemas. De qualquer ponto em que se encontrasse no grill do Tênis Clube, levantava-se de sua mesa e atirava violentamente em direção de meus músicos, fichas de madrepérola, no valor de quinhentos mil-réis ou de um conto de réis. Eram torpedos milionários que vinham acompanhados de estrepitosa gargalhada, maior ainda quando a ficha arrebentava um espelho, amassava algum instrumento ou obrigava os músicos a pequenos malabarismos a fim de evitar que a gorjeta atingisse sua integridade física”.

“Certa vez, uma placa foi parar embaixo do estrado da orquestra. Como quinhentos mil-réis era muito dinheiro, ficamos até depois da nossa hora, esperamos que todos os clientes do Tênis tivessem partido, carregamos o piano e as estantes e finalmente levantamos o estrado para recolher a ficha, trocada por dinheiro, no dia seguinte, na caixa do cassino”.

“Os bailes de carnaval do Tênis eram conhecidos por sua animação. O policiamento era feito pelos truculentos "polícias especiais", com seus famosos quepes vermelhos. Rapazes extremamente delicados, que participavam da segurança do governo e tinham o hábito de bater primeiro e perguntar depois”.

“Resolvi brincar o carnaval de 41 no anonimato e mandei então confeccionar um dominó preto que me permitiria deixar de ser por algumas horas o conhecido Maestro Carlos Machado. Na noite de terça-feira, vesti minha fantasia e entrei no salão. Tal como nos romances de Veneza, já informara a uma senhora que o dominó preto era meu. Passando pela mesa do Bejo, sentei-me para tomar um uísque, como já era de meu costume. A reação do coronel foi imediata. Deu um pulo, sacou seu revolver e berrou: "Mascarado, não!" Nunca avistara um revolver no meio da cara e já ia sendo agredido pelos seguranças quando retirei rapidamente o capuz e gritei: "Coronel, sou eu, o Machadinho!"

“Bejo teve um ataque de riso e eu, ante o olhar de todos, retirei-me para o camarim sem coragem até mesmo de aparecer diante de minha orquestra. Nunca sentira a morte tão perto. Terminando assim melancólico e definitivamente o carnaval de um quase incógnito dominó negro.

“Outra das manias do Bejo era tratar assuntos de Estado no grill. Aos sábados, quase mil pessoas vinham dançar ao som de minha orquestra e o grande sucesso musical da época era a conga. Os casais dançando, a animação cada vez maior, a multidão acompanhando euforicamente o famoso "one, two, three, beat ... one, two, three, beat ...” e, subitamente, vinha o gerente até a orquestra e dava ordem de pararmos a música para não atrapalhar os importantes assuntos que estavam sendo tratados pelo coronel.

A orquestra estancava, os pares ouviam meio aturdidos a minha explicação, olhavam para a segurança presente e retiravam-se todos para suas mesas. Geralmente, a interrupção durava uns dez minutos e Iá voltava a ordem para recomeçarmos o baile. A pista enchia-se novamente, a alegria retomava ao grupo e todos se entregavam a conga até nova ordem expressa para suspendermos a festa. Eram as noites do Tênis Clube, onde reinava o Coronel Bejo”. (p108-109)

O fim da ditadura Vargas foi também o fim dos cassinos. Com o governo Dutra, em 1946 fecharam o jogo no Brasil. Fecharam não, estatizaram, pois o jogo do bicho, tornado contravenção, é até hoje uma das caixinhas de engordar salários da Polícia. Depois vieram as loterias, monopólio estatal, e um breve ressurgimento dos bingos em nossos dias, logo acabado para não deixar que o dinheiro flua para fora dos cofres da máfia estatal. O dono deste grande império era Joaquim Rolla, principal acionista da Urca, Quitandinha, Tênis Clube, Urca de Poços de Caldas, Casino da Pampulha, Casino de Araxá e Icaraí, Pavilhão de São Cristóvão para feiras e exposições. Era um empresário semi-alfabetizado, destes que o Brasil tanto se orgulha, que tinha ganho dinheiro com obras públicas e que – apaixonado pelo pano verde – aplicou inicialmente na Urca multiplicando um império de centenas de empregados.

Nada disso foi suficiente para o moralismo do fecaloma catolicizante que sobe ao cérebro das altas autoridades do país. O decreto de Dutra “destruiu bilhões de cruzeiros empregados em cassinos, hotéis e espetáculos. Ainda tentou lutar, praticamente sozinho, ausentes os ‘amigos’ das mesas cativas de seus estabelecimentos, mas, inteiramente abandonado pelas autoridades, acabou por sucumbir o maior conhecedor do turismo de diversões. Olhando para tudo que ele construiu, parece incrível que toda esta imensa organização tivesse sido feita por um homem que nunca viajou e mal sabia ler. Infelizmente, Joaquim Rolla nasceu no país errado!” (p113).

Bem, o Rio de Janeiro poderia ser uma Atlantic City e Petrópolis uma Las Vegas, mas nosso atavismo regressista não permite nem mesmo estas comparações.

Como era a Urca

“A Urca era um mundo dentro do Rio de Janeiro. Um bairro com vida própria, onde quase todas as pessoas se conheciam e se ajudavam. Em quartos, apartamentos, pensões e casas moravam os artistas, bailarinas, músicos, croupiers, profissionais de todas as classes que trabalhavam no cassino. Frequentavam os mesmos cafés, bares e restaurantes, tomavam banho na tranqüila Praia da Urca, tinham crédito nos mercadinhos e açougues, armazéns, padarias e tinturarias...”

“Os funcionários e profissionais que trabalhavam no cassino eram da maior categoria. Ganhávamos bem e tínhamos estabilidade. Os artistas e músicos eram contratados pelo prazo de quatro anos. Certa ocasião fui convidado para ir trabalhar no Casino Atlântico, ganhando quase o dobro do que recebia na Urca. Não consegui ser liberado pelo seu departamento jurídico – afinal, eu já estava classificado entre móveis e utensílios da Urca....”

“Todos nós tínhamos permissão para freqüentar os salões de jogo; perdíamos muito e, quando do fechamento dos cassinos, alguns artistas deviam aproximadamente três meses de salários adiantados.”

“As Fichas circulavam como dinheiro dentro da Urca, o que permitia pagar-se a despesa do grill com uma ficha, recebendo-se o troco em dinheiro vivo. Era comum algum ganhador dar uma passada pelo grill, pedir um uísque e pagar com uma ficha de cem mil-réis, deixando o troco para o garçom.” (pg115-116).

Uma dose de uísque devia custar apenas 10 mil-réis. A Urca inventou a comemoração de aniversário. Todo aniversariante tinha direito ao Parabéns a Você e a um bolo com velinhas. Isto ficou tão habitual que os músicos já não suportavam mais tocar o Happy Birthday tantas vezes em uma só noite. Machado fazia as vezes do mestre de cerimônias, apresentando os shows em quatro idiomas, vestindo casaca. “Ladies and gentlemen! Urca proudly presents... nunca anunciávamos o término de uma atração; o que interessava era falar da próxima estréia. Uma faceta psicológica de Joaquim Rolla”. (p 117)

Joaquim Rolla tinha um departamento de publicidade somente para fazer funcionar os anúncios de suas múltiplas iniciativas. Ali trabalharam nomes como Carlos Lacerda, Celso Kelly e Franklin de Oliveira. Eleazar de Carvalho foi diretor musical da Urca, e mandava as ordens para o “maestro” Machadinho. Emilinha Borba, Virgínia Lane, Maria Della Costa e tantos artistas hoje conhecidos pela crônica jornalística estiveram trabalhando na Urca ou similares. Muitos dos atuais atores globais tiveram ascendentes que trabalharam lá, como Daniel Filho, Norma Benguel, Peri Ribeiro, Marília Pera.

Carmen Miranda marcou sua presença na Urca em 1940. Machado foi o mestre de cerimônias na noite em que ocorreu a tragédia da apresentação do show de Carmen Miranda. O repertório foi um desastre, pois não incluía canções nacionais. Inicialmente, a platéia aplaudiu vivamente, mas à medida que foi cantando Cubanchero, I like You Very Very Much e Chica Chica Bum, os aplausos foram sumindo e o ar ficou tão glacial que ela se retirou para os camarins chorando.

“Voltei mais tarde para o camarim e encontrei-a deprimida e só falando em voltar para os Estados Unidos. No dia seguinte, houve uma reunião em sua casa, na Avenida Portugal, a que compareceram Joaquim Rolla, Luiz Peixoto e o Maestro Vicente Paiva. Ficou acertado que a temporada seria interrompida o tempo necessário para a preparação de um novo espetáculo. Depois de duas semanas de trabalho intenso – num verdadeiro milagre – Carmen estava de volta, com o seu “Disseram que Eu voltei Americanizada”, “Ela disse Que Tem!”, “Voltei pro Morro” e mais uns sucessos antigos. Foi um dos maiores triunfos a que a Urca assistiu, o triunfo de uma equipe de profissionais maravilhosos e principalmente da incrível personalidade de Carmen Miranda.” (p124)

”Ficamos grandes amigos. Tão amigos que, quando retornou aos Estados Unidos, deu-me um carro de presente. Digo de presente porque me vendeu um Cord novo em folha, que deveria valer cento e vinte contos de réis, por somente dez contos. Para justificar este preço, disse-me: ‘Se não pagares nada vão andar dizendo que andavas me comendo!’ E, além do mais, o pagamento foi feito em dez notas promissórias de um conto cada uma, que saldei mensalmente com seu irmão Mário, o popular Mocotó, timoneiro do Vasco da Gama” (p124).

As histórias dos cassinos são fantásticas. Ninguém que passasse pelo Rio de Janeiro deixava de aparecer. A vida social incluía não só artistas internacionais, como Orson Welles, Nat King Cole, David Niven, como também o mundo diplomático e socialite do país.

O Pós-Cassinos

O golpe do fechamento dos cassinos causou perplexidade e rearranjos. Sem o pano verde, a boemia teve que buscar uma compensação. Machado inventou o couvert artístico, para patrocinar a montagem dos shows. A idéia deu certo e existe até hoje.

Não havendo mais a força centrípeta do jogo, começaram a aparecer boates pequenas pela cidade. A noite começava a migrar para outros lugares, na verdade a se descentralizar. Machado foi dirigir o Night and Day, uma boate no Hotel Serrador, que andava um tanto quanto paralisada. Mudou cenários, decoração, iluminação e, sobretudo, programação. Trouxe gente de primeira para seus shows, como Xavier Cugat, Tom Dorsey, Amália Rodrigues, Josephine Baker, Pedro Vargas, entre muitos outros.

Em 1948 recebeu a proposta de fundar uma casa de espetáculos próxima ao Jockey Clube, na Rua Marquês de São Vicente, que denominou de Monte Carlo. Era um lugar alto e pertencia a um banqueiro, que era o dono e idealizador. Acertando em 10% da renda bruta, Machado entrou em uma fase de ganhar dinheiro. O inconveniente era a subida pela tortuosa São Vicente, mas a vista compensava. Com a volta de Getúlio ao poder, em 1950, os antigos companheiros reapareceram.

O Monte Carlo tornou-se o centro de encontros noturnos, agora com a presença de Jango. Mas seus grandes amigos eram Antônio Maria, Sérgio Porto e Silveira Sampaio. Além de Maneco Muller, discretíssimo colunista social que, instigado pelo chefe de jornal a colocar notícias mais picantes em sua coluna, publicou uma mentirinha: “cada vez mais freqüentes as viagens a São Paulo de uma certa senhora carioca que anda de amores por lá...”. No dia seguinte, seis mulheres telefonaram para Maneco dizendo: ‘Maneco, o que está acontecendo com você? Querendo me arruinar?’ “ (p174)

Logo depois comprou outra casa de espetáculos que estava mal das pernas e denominou-a de Casablanca. A Monte Carlo, apesar do sucesso durante cinco anos, terminou sendo fechada pelo inconveniente do acesso. Os primeiros shows foram “Clarins em Fá”, “Acontece que Sou Baiano”, estreando Ângela Maria acompanhada de Dorival Caymmi, “Como é Diferente o Amor em Portugal”, com o português e showman João Villaret, elogiadíssimo por Rubem Braga, “Feitiço da Vila”, uma homenagem a Noel Rosa com Jardel Filho ao lado de Sílvio Caldas e Grande Otelo. Aliás, Machado tinha uma enorme amizade com Grande Otelo, que já se apresentava na Urca desde os velhos tempos. E também apresentou nesta fase “Esta Vida é um Carnaval”, a primeira apresentação de uma escola de samba, a Serrana e o primeiro show de mulatas do Brasil e “Satã Dirige o Espetáculo”, inspirado nas suas recordações dos dias em que viveu em Paris.

Logo após, abre o Sacha’s Bar e Restaurante, em Copacabana, em sociedade com Sacha Rubin, um pianista nascido na Áustria e que depois de fazer sucesso por toda a Europa, veio para o Rio onde acabou se naturalizando. Segundo Machado “foi o mais perfeito pianista que a vida noturna brasileira conheceu. Conhecia a preferência musical dos freqüentadores do Sacha’s quando estes entravam em nossa casa eram recebidos com sua música predileta.” (p175).

E Machado apresenta uma lista com alguns nomes de celebridades e das músicas correspondentes que Sacha mantinha junto ao piano para tocar na entrada do cliente. João Goulart teve uma passagem memorável pela noite carioca antes de tornar-se presidente, portanto na fase de vice. Costumava cortejar as “mulheres do Machado”, como ele chamava seu elenco, e às vezes precisava mostrar que tinha poder. Machado conta o caso de uma das garotas, cujo nome de guerra era Joãozinho Boa-Pinta, que “morava num apartamento que não dispunha de telefone. Para simplificar a burocracia indispensável à obtenção deste aparelho, que às vezes tem o dom de falar, Jango mandou instalar um telefone oficial na casa da moça. O problema é que, para encontrarmos o seu número, nunca descobrimos onde procurá-lo na lista telefônica: ‘Procuradoria Geral’, ‘Ipase’ ou ‘IBC’?” (p183).

Depois veio a mudança da capital federal. No início, a referência era o Rio de Janeiro e tudo que por lá existia. Brasília não tinha personalidade própria e as “mulheres do Machado” eram muitas vezes requisitadas a comparecer ao Planalto Central para seu desespero, pois comprometiam a programação da noite. Outras vezes, era Brasília que vinha ao Rio: “algumas vezes tivemos que fechar o Sacha’s para realização de festas ultra-íntimas, em que eu entrava com a casa e com as vedetes, vindas diretamente da boate. Os participantes vinham de Brasília e somente a segurança, devidamente colocada do lado de fora, é que não se integrava a estes momentos de elevado civismo, ou, usando o termo tão em voga atualmente, de verdadeira abertura política... “ (p183).

Os anos 60 iniciam o declínio da vida noturna, a princípio lento, mas depois irremediável. Por um lado, o aparecimento de música eletrônica em boates barulhentas que comoviam parte da juventude. De outro lado, a TV começava a mudar o padrão de entretenimento das famílias. Mesmo assim, a década teve feitos memoráveis e shows antológicos, mas na década seguinte o declínio da vida noturna já era inevitável. Machado foi saindo de cena aos poucos. Seus negócios começaram a ser liquidados, em parte por falta de lucro, em parte por causa da expansão da especulação imobiliária que varria o Rio levando os velhos casarões abaixo.

Seu último espetáculo foi em 1976 em uma homenagem a Braguinha, e se chamava “O Rio Amanheceu Cantando”. Nesse mesmo ano, foi contratado pela EPATUR (Empresa Portoalegrense de Turismo) para apresentar um pequeno show em diversas cidades gaúchas. Era para ele uma alegria retornar ao Estado depois de tanto tempo ausente. “Estava sofrendo um verdadeiro processo de rejuvenescimento quando San Vito Victor nos ofereceu um sensacional churrasco em Caxias do Sul.

Retornei em companhia de um diretor da Epatur, hoje falecido, e cujo nome interessa apenas aos advogados que tratam de meus interesses em Porto Alegre. Este diretor, talvez sofrendo os efeitos da noitada, entrou com seu carro na traseira de um caminhão, corretamente parado no acostamento. Fui atirado longe e levado em estado de choque para a Santa Casa de Pelotas, onde recebi dos médicos, freiras e enfermeiras tratamento dos mais carinhosos. A foto do carro completamente destruído foi publicada na imprensa e minha morte anunciada. Familiares e amigos ficaram desesperados.... Sofri inúmeras fraturas, quase perdi uma vista e, de volta ao Rio, fiquei nove meses inativo... A mágoa é profunda. Eu voltara ao meu Estado, ao meu amado Rio Grande do Sul, contratado pela empresa de turismo da cidade onde nasci, ocorre um grave acidente onde quase morro e tive uma única recompensa – a de ficar impedido de trabalhar, pela primeira vez em trinta e sete anos de atividade no Brasil. Estes acontecimentos mostraram-me como é grande a mesquinhez humana e como nada somos diante do que pensamos representar. Vivendo a solidão branca do hospital, resolvi que havia de começar logo a escrever um livro onde contaria um pouco desta minha vida errante, louca, bela, triste, amarga, alegre, repleta de sucesso, pontilhada algumas vezes de fracassos, a vida de um visionário que acreditava na justiça dos homens. Um livro onde falaria de espetáculos, de mulheres, do jogo, dos amigos que tive, das enormes fortunas que ganhei, de tudo que perdi. Um livro-verdade onde mostraria que se fui, tantas vezes, o ’Rei da Noite’ e passei a caviar e champagne, em outras oportunidades o dinheiro só deu para uma média com pão e manteiga. “ (p235)

E conseguiu, mais uma vez, desempenhar-se com sucesso. Seu depoimento em Memórias Sem Maquiagem é impar, seus causos, do arco-da-velha, seu testemunho uma fonte de pesquisa histórica. Com os contatos que teve, Machado poderia ter usado a pistolagem política para se aboletar em uma embaixada, como a francesa e viver até o fim da vida sua paixão parisiense. Mas não o fez. Preferiu o caminho da boemia, da criação e do entretenimento. Fez mais coisas que todo um (ou vários) Ministérios em sua época. Morreu em 05 de janeiro de 1992 aos 83 anos.

Carlos Machado
Memórias sem Maquiagem
Livraria Cultura Editora — 1978

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