quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Euclides da Cunha - Contrastes e Confrontos

Parte do discurso de posse de Euclides na Academia Brasileira de Letras. Vale pelo estilo. Os arquivos em PDF dos Livros de Euclides você encontra no website da Biblioteca Nacional e no site Euclides da Cunha
Castro Alves foi dos nossos últimos românticos. Depois dele, em todo o período que vem de 1875 até hoje, temos mudado muito e vamos mudando ainda, sem que se note uma situação parada, das que se fazem ao menos para se avaliar quanto se andou. É natural. Realizamos duas empresas a que nos impeliam as nossas tradições, e vamos agora arrebatados nas correntes novas que delas se derivaram. Mas, infelizmente, a par destas energias próprias, tivemo-las estranhas. O qüinqüênio de 1875-1880 é o da nossa investidura um tanto temporã na filosofia contemporânea, com seus vários matizes, do positivismo ortodoxo ao evolucionismo no sentido mais amplo, e com as várias modalidades artísticas, decorrentes, nascidas de idéias e sentimentos elaborados fora e muito longe de nós. A nossa gente, que bem ou mal ia seguindo com os seus caracteres mais ou menos fixos, entrou, de golpe, num suntuoso parasitismo. Começamos a aprender de cor a civilização: coisas novas, bizarras, originais, chegando, cativando-nos, desnorteando-nos, e enriquecendo-nos de graça. A inteligência brasileira sentia a ventura radiosa da Cinderela pompeando o fausto gratuito de uma fantasmagoria simpática. Diante de novos descortinos mais amplos, partiu a cadeia tradicionalista que se dilatara até aquele tempo com Alencar e Porto Alegre, e atirou-se para a frente quase envergonhada da sua situação anterior, que entrou a desquerer, repulsando os seus melhores nomes, e sugerindo um protesto tranqüilo, lavado de elegante ironia, de alguém que teve o ensejo de a ver naquele momento e de acompanhá-la até hoje, até o instante em que vos falo. Sem alentados dizeres, o mestre, que hoje nos preside e guia, apontou então, sorrindo, os perigos de uma avançada sem bandeiras, à semelhança de uma fuga.
Pelo menos tudo aquilo era ilógico. O espírito nacional reconstruía-se pelas cimalhas, arriscando-se a ficar nos andaimes altíssimos, luxuosamente armados. Os novos princípios que chegavam não tinham o abrigo de uma cultura e ficavam no ar, inúteis, como forças admiráveis, mas sem pontos de apoio; e tornaram-se frases decorativas sem sentido, ou capazes de todos os sentidos; e reduziram-se a fórmulas irritantes de uma caturrice doutrinária inaturável; e acabaram fazendo-se palavras, meras palavras, rijas, secas, desfibradas, disfarçando a pobreza com a vestimenta dos mais pretensiosos maiúsculos do alfabeto. Houve então o soleníssimo préstito do Determinismo, da Evolução, do Inconsciente, do Incognoscível, em que se amuletavam, intrusas, algumas velhas carpideiras do romantismo: a Justiça, a Escola e a Liberdade... Assim, não maravilha que a nova geração, do avançar aforrado, não soubesse, afinal, para onde seguir. Apenas um exíguo grupo se destacou: arregimentou-se em torno de um filósofo; e afastou-se. Ninguém mais o viu — e mal se sabe que ele ainda existe, reduzido a dois homens admiráveis, que falam às vezes, mas que não se ouvem, de tão longe lhes vem a voz, tão longe eles ficaram no território ideal de uma utopia, no dualismo da positividade e do sonho... O resto ficou numa fronteira indecisa a tatear dentro de uma miragem que, à alta de melhor nome, se chamou durante muito tempo a Idéia Nova. Que era a Idéia Nova ? Eu poderia responder-vos que era uma coisa muito velha, uma curiosa infantilidade de cabelos brancos, ou uma novidade de cem anos – mas prefiro a palavra de um poeta do tempo. Escutemo-lo:

Está deserto o céu. No grande isolamento,
Palpita ensangüentado o sol – um coração...
Mas os deuses de Homero, o Jeová sangrento,
Alá e Jesus Cristo, os deuses onde estão?

Morreram. Era tempo. Agora encara a terra:
Ressoa alegre a forja e sai da Escola um hino.
O gênio enterra o mal em uma negra cova.

Deus habita a consciência. O coração descerra
Aos ósculos do Bem o cálice purpurino.
Vem perto a Liberdade. É isto a Idéia Nova.
Os versos são de 1879 e o poeta, à volta dos vinte anos, chamava-se Antônio Valentim da Costa Magalhães. Nascido em 1859 nesta capital – aquela data e este lugar são elementos dignos de nota na sua formação. Já se tem feito um confronto instrutivo dos nossos escritores do Norte e do Sul. Talvez fôsse mais útil defrontar os que se formam na orla litorânea sob a luz variamente refletida da cultura européia com os que passam as primeiras quadras no remanso das gentes sertanejas, mais em contato com o gênio obscuro das nossas raças. Neste ponto o regimen moral do Brasil reproduz a sua inegável anomalia climática: varia mais em longitude do que em latitude. Mas não me alongarei por aí. Notarei apenas que os primeiros quinze anos de Valentim Magalhães coincidem com uma fase de profundas mudanças da nossa existência política. De 1860, ao levantar-se o preamar democrático, simbolizado em Teófilo Ottoni e rugindo na “Mentira de Bronze” de Pedro Luís, a 1870 e 1875, quando a monarquia perdeu, uma após outra, as muletas da aristocracia territorial, e da Igreja – foi tão intensiva a decomposição do antigo regime que o simples enfeixar as frases acerbas dos maiores chefes de seus partidos é uma missão de Tácito, e não se compreende que se perdesse tanto tempo para realizar-se o passeio marcial de 15 de novembro de 1889. Assim a juventude do escritor aparelhava-se para a vida quando em torno a sociedade se alterava, apercebendo-se de novos elementos para existir; e isto precisamente no cenário mais revolto de uma tal metamorfose. A geração de que ele foi a figura mais representativa, devia ser o que foi: fecunda, inquieta, brilhantemente anárquica, tonteando no desequilíbrio de um progresso mental precipitado a destoar de um estado emocional que não poderia mudar com a mesma rapidez; e a sua vida, a sua carreira literária vertiginosa, toda disposta a nobilíssimas tentativas reduzidas a belíssimos preâmbulos, a nossa própria vida literária, impaciente e oidejante, brilhando fugazmente à superfície das coisas, inapta às análises fecundas pelo muito ofuscar-se com as lantejoulas das generalizações precipitadas. Nada sei, infelizmente, dos primeiros tempos em que a sua educação se delineou. E 1877, contando apenas dezoito anos, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo — e daí por diante, sem um hiato, encadearam-se-lhe os dias numa atividade pasmosa. Assim é que para logo colaborou em três periódicos acadêmicos, a Revista de Direito e Letras, o Labarum, onde fulgia o esplêndido humorismo de Eduardo Prado, e a República, onde Lúcio de Mendonça açacalava as suas rimas golpeantes. Noviciando nas letras, Valentim revelou de pronto uma jovialidade desbordante, que foi o traço mais duradouro da sua móvel fisionomia literária, e uma aptidão rara para o jornalismo, que a breve trecho, em 1878, o tornou aturado colaborador dos melhores jornais do Rio e São Paulo. Em 1879 já era autor de três opúsculos, Ideias de Moço, Grito na Terra e General Osório, escrito a duas penas com Silva Jardim, e de um livro de versos Cantos e Lutas, onde lhe germinou o renome. Precipito, acinte, as datas e os livros. É o melhor comentário à sua carreira.
Em 1880, ainda estudante, desposou a nobilíssima senhora, que tanto lhe aformoseou a vida, e, mau grado os novos deveres adquiridos, escreveu apaixonadamente para a Evolução, dirigida por Júlio de Castilhos e Assis Brasil, continuando a colaborar na Gazeta, onde imprimiu Colombo e Nené, o seu conhecido poemeto. Fundou a Comédia em 1881; traçou-lhe transcorridos três meses, o gracioso epitáfio — e foi redigir o Entreato, com Eduardo Prado, e o Boêmio, com Raimundo Correia. Formou-se. Destacara-se notàvelmente granjeando invejável nomeada entre companheiros que se chamavam Júlio de Castilhos, Silva Jardim, Barros Cassal, Teófilo Dias, Eduardo Prado, Ezequiel Freire, Raul Pompéia, Randolfo Fabrino, Lúcio de Mendonça, Assis Brasil, Afonso Celso, Fontoura Xavier, Augusto de Lima, Alcides Lima, Alberto Sales, Pedro Lessa, Luís Murat, Júlio de Mesquita, Raimundo Correia. Cito ao acaso, esquecendo outros cômpares no merecimento, apenas para notar que ainda não se congregaram sob os tetos de uma escola tantas esperanças e tão discordes temperamentos — da severa formação política de Castilhos ao evangelho revolucionário de Silva Jardim, da rudeza republicana de Barros Cassal ao monarquismo elegante de Eduardo Prado, ou da melancolia impressionadora de Teófilo Dias ao gracioso humorismo de Ezequiel Freire. Ora, Valentim foi a figura representativa no meio de tão díspares tendências, por isto mesmo que lhe faltou sempre uma diretriz à atividade dispersiva. As condições do meio e a sua índole arrastaram-no demasiado à vida exterior e para a sua infinita instabilidade. Depois de formado persistiu a aceleração de sua carreira, dissipando em força o que adquiria em movimento. Em 1882 publicou os Quadros e Contos, livro prometedor, onde refulgem páginas descritivas de excepcional colorido, avivadas tôdas daquela galanteria do escrever, que raro o abandona — e que se acaso o abandona é para tornar maior. Realmente, joeirando-se todos os seus versos escritos em 1883, talvez nos restassem apenas três sonetos; mas estas 42 linhas perduram nas nossas letras como a expressão mais eloqüente de uma saudade ao mesmo passo excruciante e encantadora na sua tocante singeleza. Falecera-lhe o pai extremosíssimo, e Valentim, que até então escrevera para tada a parte, num insofregado anelo da consideração coletiva, — surpreendido pela desdita, confiou, chorando, à alma da sua esposa, aquele poema de duas páginas O nosso morto, que não preciso recitar-vos, tão vivo ele perdura na vossa memória.
Mas estas transfigurações eram-lhe instantâneas. Naquele mesmo ano desencadeou na Gazeta de Notícias a sua mais viva campanha de franco-atirador do espírito. Revelai-me o desgracioso do símile: as Notas à Margem recordam uma escaramuça agitadíssima, estonteadora, sem rumos, à caça do imprevisto, onde não há triunfos nem reveses, e os recontros e os adversários se travam e se distinguem fugitivos, a relanços e aos resvalos, de um reconhecimento armado que não pára... Porém, o que ali falta no compasso das idéias, sobra na propriedade do dizer e num desvelado apuro de linguagem, que influíram consideravelmente em nosso meio. Muita gente, entre nós, começou a escrever melhor, sob as reprimendas gráceis daquele infatigável caçador de solecismos e persistente fiscal de pronomes insubordinados. Ao mesmo passo na imprensa diária acentuou-se melhor esta forma literária facílima, que é o artigo do jornal, onde a medida e a intensidade das idéias têm de ceder, não já aos dúbios contornos, capazes de ajustá-las ao maior número possível de critérios, nos limites de uma atenção de quartos de hora, senão também à fluidez de expressão, que lhes permita insinuarem-se nas nossas preocupações, encantando-nos um momento — e passando sem deixarem traços. Continuemos a resenha. Em 1884 trasladou ao português, com Filinto de Almeida, El Gran Galeoto, de Echegaray — e esta tradução, com as suas rimas e variedade métrica, avantaja-se ao original castelhano, onde o drama deriva na cadência única e intolerável dos versos brancos, em redondilha menor. Fundou em 1885 A Semana e este periódico, estritamente literário, fez a maravilha, nesta terra e naquele tempo, de durar três anos. Mas para isto, à parte um concurso notável, em que se extremavam, para citar somente os mortos, Urbano Duarte, Raul Pompéia, Alfredo Sousa e Luís Rosa — despendeu o melhor da sua atividade e quanto lhe adviera da herança paterna. Mas não vacilou ante a ruína. Iludia-se quem lhe medisse a fortaleza pela volubilidade. Era um caráter varonil blindado de uma jovialidade heróica.Tinha esse recato do sofrimento que é a única expressão simpática do orgulho. Os seus melhores amigos jamais lhe divisaram desânimos.
O revés não o desinfluiu. Escreveu em 1886 os Vinte Contos; em 1887, Horas Alegres; publicou, refundidas, em 1888, as Notas à Margem; em 1889, Escritores e Escritos... Vede: não há a solução mais breve no duodecênio que percorremos. Não se pula uma data sem pular-se um livro. O escritor violou doze vêzes seguidas o nonum prematur in annum... [Frase de Horácio que aconselha que os rascunhos sejam guardados até o nono ano antes de serem impressos] De 1889 a 1895 houve aparente descanso. A República, feita numa madrugada, criara a ilusão de grandes coisas feitas da noite para o dia. Valentim, como todos, vacilou na vertigem geral. Ordinariamente se acredita que o empolgasse o anseio da fortuna fácil, naquela quadra que a ironia popular ferreteou com o nome de “encilhamento”. Com efeito, salvante alguns artigos esporádicos, o incansável homem de letras parecia mudado num infatigável homem de negócios. E fundou — como toda a gente — uma companhia. Mas considerai como sonhador desdenhou as voltas retorcidas dos cifrões e alinhou parcelas como se alinhasse versos; aquela “Educadora”, que se transformou depois de uma vulgar companhia de seguros, era uma fantasia comercial. Não segurava vidas, segurava inteligências; e o segurado, ao invés de um ajuste sinistro com a morte, a troco de alguns contos de réis, garantia a educação dos filhos. O devaneio mercantil não vingou. Valentim reavivou-se: e no qüinqüênio de 1895-1900 continuou a marcar os anos pelos livros e opúsculos: em 95, Filosofia de Algibeira; Bric-à-Brac, em 96; em 97, o seu primeiro romance, Flor de Sangue; Alma e Rimário, em 98-99 — deixando prontos quatro outros: Fora da Pátria, Na Brecha, Novos Contos e Outono, que lhe demarcariam, na mesma progressão, os quatro últimos anos de existência... Uma herança de tal porte não se inventaria num discurso. Vou agitar alguns conceitos falíveis. Revendo estes volumes, o que para logo se põe de manifesto é uma falta de unidade pasmosa. O escritor muda no volver das páginas. Nos Cantos e Lutas, escuta-se, ao toar solene dos alexandrinos, o lirismo humanista que Pedro Luís divulgara desde 62; e quem quer que admita a ficção das escolas literárias, estuda-o à luz do critério sociológico de Guyau.
De feito, a inspiração não lha diluem lágrimas: é robusta, impessoal, refulgente — e a sua ...grande musa austera e sacrossanta, que para o céu azul os olhos alevanta banhados no fulgor virgíneo da verdade, era sem dúvida sincera. Mas esta linguagem, cantando herculeamente as odes imortais nunca mais se repetiu. Ao contrário, a poesia filosófica (e falo assim por obedecer à moda, porque uma tal poesia se me afigura tão absurda quanto uma geometria lírica ou a astronomia romanceada de Flammarion), a poesia “social”, em que tanto importa o subordinar-se a expressão à verdade, teve depois em Valentim um irrequieto adversário. Nos Escritores e Escritos desponta-lhe o antagonismo em dizeres concisos, golpeantes: "Em literatura a forma é quase tudo. Especialmente em poesia. É preciso ter como Teodoro de Banville o sentimento das palavras... A Forma! Eis o grande, o milagroso talismã! Quem o possui atravessa a vida sem conhecer impossíveis aos caprichos do seu gênio". A “forma” lá está com F maiúsculo. É o fetichismo do vocábulo. Com efeito, poucas vezes na língua portuguesa a palavra foi tão voluntariosa no violentar idéias, transfigurando-as ou emparelhando-as nas mais bizarras antíteses. Falando-nos de Junqueiro, por exemplo, diz-nos Valentim em menos de uma página: "A gargalhada de Junqueiro tem a altissonância trágica de Shakespeare e o assobio implacável de Gavroche [Personagem de Os Miseráveis de Victor Hugo]: é a voz potente de Victor Hugo estridulando com as casquinadas de Aretino. É Voltaire arremangado, dedos na boca, assobiando à Tiara, às batinas e aos solidéus... É o Ésquilo da troça. Hamleto rufando com as tíbias de Iorik na pança congesta de Tartufo...
Atalhemos — porque vai por diante este ajuntamento ilícito de verbos, substantivos e adjetivos, que se vêem juntos pela primeira vez e vivamente se repulsam. Mais expressiva é aquela admiração delirante. Valentim Magalhães era excepcionalmente afetivo. Tudo lhe denuncia um nobre espírito impropriado a agir sem os estímulos de uma ardente simpatia, vinculando-o às outras almas. Esta literatura associada que, em geral, a exemplo dos Goncourts, exige a base da consanguinidade, ele a praticou como nenhum outro, reunindo um irmão legítimo, Henrique Magalhães ( com quem escreveu uma paródia à Morte de D. João ), a Silva Jardim, a Filinto de Almeida e Alfredo Sousa, nos laços da mesma fraternidade. Não lhe conheço um livro sem uma dedicatória. São raríssimos os seus escritos dispersos, cujos títulos não tenham logo abaixo um parênteses guardando o nome de um amigo. A admiração, que é o sintoma mais lisonjeiro de um caráter, rompia-lhe sempre num enorme exagero.Admirou daquele jeito Guerra Junqueiro; admirou C. Castelo Branco, “polígrafo indefeso, formidável, único”; admirou Ramalho Ortigão, “um mestre, senhor de todas as verdades do mundo moderno...”; admirou Machado de Assis, esse que arranca aos rígidos vocábulos a música rebelde e fugidia... Admirou os seus próprios companheiros. Sendo preeminente na “nova geração”, não desdenhou fazer-se o garboso mestre-sala, para apresentá-la ao país. E o país conheceu-a, em grande parte, através da sua palavra carinhosa.. Não preciso exemplificar. No círculo daquela afabilidade irradiante e avassaladora caíram os que chegavam pouco depois, desde Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e Olavo Bilac até aos mais obscuros escrevedores da província. A alguns cantou em verso, desde Carvalho Júnior, desaparecido tão moço e a quem conhecemos apenas "como um meinsinger loiro, alegre e extravagante", até alguém que não preciso nomear, tão conhecido nosso é o ...que esculpido Tem sonhos, dores, alegrias. E é príncipe do Reino Unido Das Harmonias. Mas esta afetividade dissipava-lhe o espírito. O seu pendor para o artigo ligeiro é expressivo; é a tendência dos que vêem tudo de relance, na ânsia de tudo ver. Relendo os Vinte Contos, lastimamos que o escritor nunca se demorasse num assunto. A Feira dos Escravos, para citar só um caso, na sua urdidura, onde resplandece um desafogado estilo descritivo, e no seu desenlace empolgante, é o lance, inexplicavelmente abandonado, de um belo romance de costumes. Não consoavam, porém, a vibratibilidade de Valentim Magalhães e o intricado episodiar das longas narrativas. Demonstra-no-lo a Flor de Sangue. Nada direi do livro malogrado, onde, entretanto, um velho tema se remoça com uma cativante originalidade de desfecho. Considero apenas que a crítica desaçamada, que o estraçoou até à errata final, não disse mais do que o próprio romancista, no prefácio: O capítulo que primeiro escrevi na intenção de fazê-lo o primeiro do livro, foi o quinto da segunda parte; eu havia principiado pelo fim! Constantemente traído pelas melhores qualidades morais, anelando envolver na mesma carinhosa simpatia homens e cousas, todo o seu grande talento se diluía espalhado pelos aspectos inumeráveis da vida. Resumo o meu juízo: toda a obra literária de Valentim Magalhães pode ter o título único de um dos seus livros — Bric-à-Brac . E a este propósito ouçamo-lo na esplêndida volubilidade de seu estilo deserto, referindo-se àquele livro sem cuidar que fazia toda a sua psicologia literária: "...Pois esta obra é isto mesmo; é um amontoado de curiosidades literárias, e objetos de arte escrita... Junto a um conto comovido e sincero, um trecho da sátira mordaz e irreverente; em seguida depois de um surto amplo de fantasia caprichosa, um quadro exato e minucioso da vida social — Bric-à-Brac. De manhã à noite, em um só dia, o homem percorre toda a gama sentimental – eternece-se e lacrimeja; encoleriza-se e ruge; alegra-se e ri; enfara-se e boceja; enamora-se e canta; indigna-se e satiriza... " Não prossigamos. Nestas palavras sinceras só há um dizer destoante: aquele encoleriza-se e ruge. A linha acentuada do caráter de Valentim ia de uma alevantada altivez a uma robusta alacridade que o forrava aos rancores – embora do ódio, que é muitas vezes a forma heróica da bondade.
Mas este nunca lhe repontou nas polêmicas acirradas que travou e o mais aceso das quais lhe refulgia a graça amortecendo ou falseando os mais violentos golpes. Nos últimos tempos apareceram-lhe adversários a granel. Não houve aí grande homem engatinhando, ou imenso talento inédito, que se não malestreasse argüindo-o em hílares reprimendas, adoràvelmente papagueadas, de numerosos defeitos laivando-lhe o renome e desgabando-lhe os livros. Não lhes deu o prêmio de um revide. Soube apenas que existiam, indecisos, amorfos, difusos, diluindo-se e apagando-se por si mesmos, — uma espumarada fervilhante, aflorando e morrendo na esteira a sua rota impetuosa. E retorquiu, algures, sorrindo: “A princípio fui gênio; mais tarde coisa nenhuma. Hoje César, amanhã João Fernandes...” Não sei de frase mais verdadeira. Eu andava nos últimos preparatórios quando ele aqui chegou, formado de São Paulo, e posso afirmar-vos que ninguém, tão moço, ainda passou por estas ruas envolto de tão admirativa curiosidade. A sua entrada nesta capital foi a de um triunfador e em poucos dias não houve quem lhe não conhecesse a figura de irrivalizável elegância e o rosto escultural velado de palidez fidalga e aclarado por um olhar que todo ele era o reflexo dos esplendores máximos da vida. Foi, porém, o mais breve dos triunfos. Não que o escritor diminuísse o engenho, senão porque o surpreendeu um período anônimo da existência política. O quatriênio de 1886-1890 foi decisivo para os destinos do Brasil, tão de golpe nele se afrouxou a coesão de nossos costumes e num desejo desapoderado de novidades desadoramos muitos velhos atributos, que imaginávamos retrógrados e eram apenas conservadores. Aqui se me antolha digressão acidentadíssima. Evito-a. Mas no adstringir-me ao assunto, aponto, a correr, esta antinomia: precisamente quando a peregrina palavra “evolução” se tornou a rima fácil de todos os versos, rompemos com esta lei fundamental da história — tão bem expressa na continuidade de esforços dos estados sociais sucedendo-se com um determinismo progressivo — e apresentamos o quadro de uma desordem intelectual que, depois de refletir-se no disparatado de não sei quantas filosofias decoradas, nos impôs, na ordem política, a mais funesta dispersão de idéias, levando-nos, aos saltos e ao acaso, do artificialismo da monarquia constitucional para a ilusão metafísica da soberania do povo ou para os exageros da ditadura científica; ao mesmo passo que na ordem artística íamos dos desfalecimentos de um romantismo murcho, às demasias de um falso realismo, que era a pior das idealizações, porque era a idealização dos aspectos inferiores da nossa natureza.
Para ainda engravecer a crise, os dois ideais da abolição e da República não requeriam mais as emoções estéticas. Resolvidos na ordem moral, estavam entregues à ação quase mecânica dos propagandistas. Estes precipitavam-nos com o desalinho característico da fase revolucionária das doutrinas, em que se conchavam as idéias e os paralelepípedos das ruas, e os melhores argumentos desfecham no desmantelo das barricadas investidas. José do Patrocínio e Silva Jardim tomaram por algum tempo a frente da sociedade. Recordando êsse passado recente, o que vemos ao primeiro lance, é aquele mulato formidável ou aquela miniatura de Titão. Ocupam a cena toda. No próprio terreno vibrante da propaganda derivaram, por vezes, ao segundo plano os vultos de maior destaque, desde o velho Saldanha Marinho, tão esquecido depois de morto, a Quintino Bocaiúva, meio esquecido em vida — e que no retrair-se hoje a um voluntário ostracismo e no andar tão despercebido pelas nossas ruas, atravancadas de notabilidades, lembra-me alguém que vai passando devagarzinho para a História, deslembrado dos homens e da morte, confundindo-se a pouco e pouco com a sua própria estátua — uma bela estátua corretíssima e errante, sem um pedestal que a imobilize e soerga acima da multidão em que se perde... Mas não cedamos à fascinação do assunto. Observemos que em um tal meio não se compreende a existência de uma arte que é sempre o resultado de certa fixidez dos sentimentos gerais. Valentim Magalhães, como outros muitos, foi, naturalmente, apagando-se, mais e mais, naquela movimentação precipitada. Além disto, morreu depois dos trinta anos; e neste país quem quer que se notabilize e ultrapasse aquele marco, fora dos tablados da política, predestina-se ao suplício lento e indefinível de acompanhar em vida ao enterro pobre da sua própria imortalidade.
Terminemos. Faltou sem dúvida a Valentim Magalhães essa concentração intelectual que é o segredo dos gênios e dos medíocres: um espírito a dobrar-se, a revirar-se, desesperadamente, em alguns pensamentos exclusivos e impassível aos reagentes da vida exterior. Para esses a amplitude das idéias, como a das espirais, explica-se por um giro indefinido em torno de si mesmas. Os seus cérebros deveriam circunvoluir em caracol. São os eternos distraídos, ou abstratos, vivendo fora da preocupação que os escraviza, ou da inspeção em que se isolam, com um automatismo de sonâmbulos. Nas conjunturas mais opostas, entre os ruídos e as luzes de um salão de baile, ou num funeral, lá lhes está girando e regirando, torcendo-se e distorcendo-se a idéia absorvente, conservada por esta misteriosa consciência obscura, que vela perpetuamente nas profundezas do nosso espírito, e à luz da qual — sem que o queiramos, sem que o entendamos, sem que o expliquemos — se filiam as mais altas concepções aos mais fugitivos e inapreciáveis incidentes. Então compreende-se que do cair e um fruto apodrecido eles passem, de um salto no infinito, para a queda perpétua dos mundos; ou que das oscilações quase imperceptíveis da lâmpada suspensa de uma catedral, entrevistas num êxtase religioso, induzam, de improviso, as leis mecânicas do isocronismo do pêndulo. Na ordem estética recorde-se a horrível anedota de Talma: a soluçar, num desespero, agarrado ao cadáver do filho, e estacando de súbito, ao ouvir pela primeira vez a voz interior e profunda de uma dor verdadeira, que era a sua própria dor, e estudando-a friamente, para a reproduzir, dias depois, intacta, no palco, diante dos espectadores assombrados; ou a pertinácia sobre-humana de Flaubert, atravessando decênios a versar, a volver, a revolver, a corrigir, a mondar, e a remondar um assunto único, interminável... Valentim Magalhães foi o avesso desses homens. Repitamos: as condições do meio e o seu temperamento arrastaram-no demais para o mundo exterior e para a sua indescritível instabilidade. Ele entregou-se de corpo e alma ao turbilhão sonoro e fulgurante da existência. Foi o seu grande defeito, dizem. Mas este defeito — o seu maior defeito — é a mais bela imperfeição da nossa vida: o defeito de viver demais.

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