terça-feira, 29 de novembro de 2011

O nome do jogo

O nome do jogo de Will Eisner

Uma história em quadrinhos (HQ) que causou extensos comentários na Internet a partir de uma notícia veiculada pela afiliada da TV Globo em Vila Velha, depois que uma mãe denunciou o conteúdo. Seu filho teria recebido o livro da biblioteca da escola para fazer um trabalho escolar. A reportagem mostra algumas figuras de um homem na cama com uma mulher (ambos cobertos), e outra mulher recebendo bofetadas de um homem. Isto caracterizaria o livro como politicamente incorreto para a escola, que ao receber a notícia prometeu recolher o exemplar. Ocorre que o livro foi distribuído em todo o país pelo MEC e não se sabe de nenhum comunicado oficial do Ministério da Educação sobre o destino do livro.

Mas do que trata o livro, afinal, para que tenha causado tanta indignação? Trata-se da história fictícia de uma família judaica, os Arnheim, imigrantes da Alemanha, que se estabeleceu em Nova York e prosperou nos negócios de confecção de espartilhos, no final do século XIX. Com a mudança nos hábitos de vestir, o filho do patriarca Moses chamado Isidore passou para a área financeira, e a família tornou-se socialmente uma das mais importantes do início do século no ramo de corretagem de valores, disputando clientes e fortunas com negócios imobiliários e na bolsa de valores.

Entretanto, o propósito de Eisner é mostrar a disjunção entre as gerações de famílias cujos filhos não só não seguem o caminho dos pais, como naufragam na dissolução moral do caráter e relações familiares. Para os novos ricos emergentes, o único sentido da vida revela-se na ostentação e ambição que se materializam no modo de agir condizente com o auto-reconhecimento trazido pelo dinheiro.

Isidore casou-se e teve 2 filhos, Alex e Conrad. A história gira em torno destes 2 rapazes, que criados em um ambiente de superproteção descambam para a irresponsabilidade, para a vida endiabrada na adolescência e depois para a devassidão moral e ética na idade adulta. Todo o conflito ocorre entre o sentimento de ser aceito na comunidade judaica, como família endinheirada e influente, e na contradição entre a vida mundana, o desregramento social e os conflitos familiares.

A história avança com a injunção de outras famílias judaicas pelo casamento e pelo arranjo de interesses. Will Eisner trabalha com o temperamento humano, especialmente o caráter ambicioso das mulheres em ascender socialmente através do casamento e do ambiente social ancorado na hipocrisia e no dinheirismo. Com isso, Eisner se torna um crítico impiedoso da sociedade da época, mas escorrega demais na têmpera, deixando a porta aberta para que seu trabalho seja utilizado como propaganda contra os ricos, por apresentá-los muito mais sovinas e inescrupulosos do que na realidade, e mostrar as constantes humilhações a que são submetidas as pessoas de condição social inferior e as criadas, que até mesmo são estupradas pela licenciosidade dos 2 rapazes incontidos.

Não se trata, portanto, de literatura para adolescentes, pois Eisner não está interessado no conflito moral, mas apenas em mostrar o quadro de infelicidade resultante da busca desesperada pelo poder. Seu tom não esconde certa obsessão pela depravação. Traçando um perfil excessivamente negativo da vida social da alta classe, Eisner sem querer se prestou à propaganda política do petismo, razão pela qual foi patrocinada pelo MEC como instrumento de educação sobre a luta de classes nas escolas públicas.

O politicamente correto da história, na concepção petista em que ‘ricos não são felizes, nem intimamente boa gente’ segundo o estereótipo marxista, contrasta com o politicamente correto na educação juvenil – maridos espancando mulheres, frequentando lupanares, estuprando criadas, casamentos desfeitos na vida real mas mantidos por conveniência. Poderia ser um bom argumento para uma história que se passasse em Brasília dos dias atuais, exceto pela ausência total da pior de todas as hipocrisias: a de ladrões de dinheiro público que se fazem passar por revolucionários, representantes do povo e infâmias tais que Eisner, naturalmente, não poderia passar nem perto, uma vez que seus conflitos não pecam por falta de legitimidade na obtenção de riqueza.

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