terça-feira, 20 de abril de 2010

O Iogue e o Comissário

ARTHUR KOESTLER - O IOGUE E O COMISSÁRIO

Pgs 169-178 - Instituto Progresso Editorial - 1947.

As páginas que seguem foram escritas por Koestler como testemunha da destruição humana causada pelo Stalinismo. Seu depoimento não trata de denunciar os horrores, mas de entender por que as pessoas acreditam em uma ideologia redentora, mesmo quando a verdade não pode mais ser escondida. A tentativa de entender a mente humana, prisioneira da propaganda levou Koestler a fazer diversas indagações de ordem psicológica e moral que apresento a seguir.

ANATOMIA DE UM MITO

"As épocas de descrença são o berço de novas superstições" AMIEL.

Newton não escreveu somente os Principia, mas também um tratado sobre a topografia do inferno. Ainda hoje mantemos crenças incompatíveis não só com fatos que podem ser observados, mas com os fatos realmente observados por nós. Dentro de nós, estão reunidos o ardor da crença e o gelo do raciocínio, porém, em geral, não agem, um sobre o outro: uma não se condensa e o outro não derrete. A mente humana é fundamentalmente esquizofrênica, dividida em, pelo menos, dois planos que se excluem mutuamente. A diferença principal entre a esquizofrenia "patológica" e a "normal" reside em que o elemento irracional é individual na primeira, e assim oposto ao caráter irracional da segunda o qual é aceito pela coletividade. Exemplos típicos de padrões esquizofrênicos socialmente aprovados, são o astrônomo que acredita tanto em seus instrumentos quanto no dogma cristão; o capelão militar; o comunista que aceita "proletários milionários"; o psicanalista que se casa; o determinista que insulta os seus opositores. O homem primitivo sabe que seu ídolo é um pedaço de madeira entalhado, entretanto acredita em que, com ele, possa provocar a chuva; e apesar de que gradativamente se tenham refinado as nossas crenças, o padrão dualista da razão humana conservou-se inalterado nos seus fundamentos. Há indicações de que este dualismo se correlaciona a processos nervosos específicos. Os recentes progressos na neurologia dão como estabelecido que o tálamo (filogeneticamente, o órgão mais velho da parte central do cérebro) é a sede do sentimento e da emoção, e que o córtex "pallial" (ao lado dos hemisférios cerebrais) é a sede do pensamento ("lógico") discriminatório. As experiências feitas com animais e o estudo de certos tipos de lesões cerebrais durante a última guerra (como seja: síndrome talâmico da cabeça) revelaram duas tendências mútuas inibitórias de reação a uma dada situação: o tipo de comportamento "talâmico" e o "cortical". O comportamento talâmico é dominado pela emoção, e o comportamento cortical pelo raciocínio formal. As crenças irracionais têm raízes nas emoções; sente-se que elas são reais. A crença pode ser definida como o "conhecimento das próprias vísceras". O comportamento em que há dominação talâmica é acompanhado pelo pensamento afetivo, isto é, desejo ou medo; o tipo de pensamento que encontramos nos macacos, selvagens e crianças; em vinte e três das vinte e quatro horas do dia em nós mesmos. O pensamento cortical, i. e., o pensamento racional, destacado, é uma aquisição nova e frágil que entra em colapso com a menor irritação visceral, transmitida pelo sistema nervoso ao tálamo o qual uma vez despertado, domina a cena.

A antropologia e a psicologia têm conseguido, durante os últimos cinqüenta anos, resultados convergentes. Levy-Bruhl provou que a mentalidade dos primitivos é pré-lógica; as categorias kantianas de espaço (homogêneo), tempo e causalidade não existem na mente primitiva a qual é controlada não pelo raciocínio formal mas por crenças inteiriças (pré-ligações coletivas). Freud demonstrou as raízes afetivas do pensamento, e seguiu-as retrospectivamente até o Totem e o Tabu; Jung demonstrou que certas imagens e crenças arcaicas e prototípicas são propriedade coletiva da raça humana. Até a filologia moderna chegou mais ou menos independentemente aos mesmos resultados: Ogden e Richards provaram o caráter fetichista emocional das palavras e declarações tautológicas. A ciência atingiu um nível suficientemente racional que a habilita a ver a irracionalidade do funcionamento normal da mente.

Até agora, a ciência menos afetada por este desenvolvimento foi a política. Em última análise, a razão do malogro da Segunda, Terceira e Quarta Internacionais e do socialismo internacional está no desprezo pelo fator irracional na mente humana. A doutrina socialista e a propaganda esquerdista continuam baseadas na hipótese de que o homem é um ser inteiramente racional que carece de ser convencido somente por argumentos lógicos, classe noturnas, panfletos, etc., para reconhecer os seus próprios interesses e agir de acordo com eles. O subconsciente, a parte mais velha do cérebro, 'os arquétipos, o mundo do sonho, as glândulas endócrinas o sistema nervoso autônomo, isto é, noventa por cento do que constitui o verdadeiro homo sapiens — foi deixado de lado. Dai o total malogro da esquerda em analisar, explicar e combater os fenômenos do fascismo. Daí seu otimismo enganador, superficial, mesmo estando, como está, à beira do abismo.

[O Fascismo, por outro lado, apesar de sublinhar a importância do irracional e do mito, não está mais próximo da verdade científica. Erra porque nele o elemento racional é minado, sua sociologia baseada em uma insustentável teoria das raças, sua economia política é rudimentar e eclética e sua sociedade é estática. A única tentativa científica para síntese da concepção marxista da história, e da "escola neo-maquiavélica" — Michel, Pareto, Sorel, Mosca — cujo herdeiro é o Fascismo foi feita por Burnham; e ele foi prontamente apedrejado pela Esquerda. As conclusões de Burnham são muitas vezes sumárias, e é fácil criticá-lo em certos pormenores; porém a originalidade de sua concepção e seu caráter estimulante toma intenso revelo logo que se compara "The managerial Revolution" a Revolução dos dirigentes ou "The Macchiavellians" Os Maquiavélicos com, digamos, as Reflexões sobre a Revolução em nossa Época, do Professor Laski. Os primeiros estão para o segundo como o afrodisíaco está para um comprimido de aspirina].

II

Esta falha básica da Esquerda não pode ser explicada por defeitos individuais de seus dirigentes. As raízes do mal são muito mais profundas.
Até o fim do século dezoito, os movimentos revolucionários tiveram uma base religiosa ou, pelo menos, fortes laços religiosos. Satisfaziam tanto o desejo racional de uma vida melhor, quanto o desejo irracional do absoluto. Em outras palavras, eram movimentos emocionalmente saturados. A Revolução francesa trouxe uma mudança radical.

A Reforma havia atacado, em nome de Deus, o clero papista corrompido; a luta secular deixara intacta a divindade. A Revolução francesa foi um ataque frontal não somente contra o clero mas ainda contra Deus. A tentativa de Robespierre de fornecer um sucedâneo sintético na "Deusa da Razão" provou mal. Felizmente, entretanto, a essa deusa substituíram outros absolutos: Liberté, Égalité, Fraternité não eram um mero lema mas um fetiche; como o eram a "cocarde" tricolor e o barrete frígio. A tradição romana — cônsules, patrícios, o novo calendário, etc. forneceu a mitologia do novo culto. A Igreja foi sobrepujada, veículo secular da divindade, por la patrie, instrumento destinado à divulgação do novo evangelho dos Direitos do Homem. A Declaração da Independência Americana contém os palavras "Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais...". A ênfase está em "evidente por si mesmas"; é a palavra de ordem da crença axiomática, de uma revelação acima do raciocínio lógico.

Porém o poder de atração e de emoção direta das novas divindades foi de curta duração; desgastou-se em menos de um século, em contraposição com os quase dois milênios do mito cristão. As razões são óbvias. Os mitos e ritos da cristandade assentam em alicerces ancestrais que remontam ao homem neolítico, à magia, e ao animismo, através da Babilônia, da Suméria e da Judéia. Suas raízes localizavam-se nas mais profundas camadas do inconsciente. Porém os dogmas de 1789 eram produto do raciocínio consciente. Por um curto espaço de tempo, foram eles capazes de preencher o repentino vácuo, de servir como ídolos faute de Mieux. Não eram porém capazes de personificação, não podiam servir de tela de projeção para o desejo humano de absoluto. Não podiam fornecer uma compensação mística para o seu sentimento de desadaptação cósmica e frustração, para seus terrores ancestrais. Não tinham eles raízes talâmicas, eram divindades "ersatz", seculares e sintéticas. Os deuses residem em nuvens e crepúsculos; a "mystique" da esquerda, como dizem os franceses, nasceu na forte claridade da Idade da luz.

Mais ou menos na metade do século dezenove, depois de 1848, o novo credo havia perdido seu caráter religioso de fetiche. Os epígonos da Revolução francesa — Proudhon, Fourier, Saint-Simon — não foram profetas, porém manivelas. Não houve movimento com um apelo emocional irresistível para assumir a herança da Cristandade em declínio.

Os fundadores do socialismo moderno pensavam que um apelo desta natureza se havia tornado desnecessário. A religião era ópio para o povo e devia ser substituída por uma dieta racional. O rápido progresso de todas as ciências, com o Darwinismo à frente, criara uma crença geral otimista na infalibilidade do raciocínio, em um mundo claro, resplandecente, cristalino, com uma estrutura atômica transparente, onde não há lugar para sombras, crepúsculos e mitos. Foi nessa atmosfera que nasceu o socialismo científico de Marx; em um período em que as relações entre o comportamento racional e o afetivo eram consideradas da mesma maneira que a relação entre cavaleiro e cavalo; o cavaleiro representava o pensamento racional, o cavalo aquilo que então era denominado "instintos obscuros" e "besta humana". Hoje, nós nos tornamos mais modestos, e estamos inclinados a pensar que o centauro mitológico seria uma comparação mais adequada. Mas, por enquanto, é uma tradição na esquerda discutir com o cavaleiro enquanto outros chicoteiam o cavalo.

Os resultados foram os que se podiam esperar. Em um século e meio, desde a tomada da Bastilha, os movimentos se sucederam sem solução da continuidade e desapareceram. O jacobinismo, o Fourierismo, o Utilitarismo, a Primeira e Segunda Internacionais, o Owenismo, Trade Unionismo, o Anarquismo, o Fabianismo, o Wilsonismo, a Liga das Nações, a República de Weimar, a Terceira Internacional — foram todos ramos da mesma árvore com raízes da Era das Luzes, e que se tornaram ramos mortos em uma década ou duas...

As realizações práticas destes movimentos abortivos foram, não obstante, enormes e sem paralelo na história. Os zombadores que negam o progresso concreto realizado deveriam ler o capítulo no "Capital" de Marx sobre o trabalho das crianças nas fábricas inglesas no inicio do último século, ou a história do motim a bordo do "Spithead and Nore", ou Liza de Lambeth, de Maugham. Aqueles cento e cinqüenta anos de movimentos profanos trouxeram melhoramentos mais tangíveis na vida do homem comum do que mil e quinhentos anos de cristandade. Mas somente quanto à realidade material. O reflexo desta realidade na mente popular foi diverso. Medido pelos seus objetivos originais, cada um destes movimentos progressivos foi um malogro. Nenhum deles se iniciou com os objetivos limitados que realizaram; todos começaram prometendo a Idade de Ouro, com um fervor utópico. As realizações concretas foram-lhes mais ou menos os subprodutos de seu malogro ideológico; o saldo que os executores testamentários de um milionário falido acham depois de sua morte. Assim, enquanto na esfera material, o efeito acumulador das tentativas da esquerda foi uma lenta e contínua melhora das condições sociais, o seu efeito acumulado na esfera psicológica foi uma crescente frustração e desilusão. Nada havia quem substituísse a fé absoluta perdida, a crença em uma realidade superior, em um sistema fixo de valores éticos. O progresso é um mito superficial porque suas raízes não estão no passado, mais sim no futuro. A esquerda tornou-se emocionalmente dia a dia mais desarraigada. A seiva estava secando. Na época em que o Trabalhismo britânico e a Social Democracia alemã subiram ao poder, já tinham perdido toda a vitalidade. As comunicações com as camadas inconscientes estavam cortadas. E seu "ethos" era baseado em conceitos puramente racionais; a única recordação da tradição revolucionária francesa era o cáustico tom voltairiano de suas polêmicas.

Em um Congresso de escritores comunistas [em Moscou nos anos 30], depois de horas de discursos sobre o bravo novo mundo em construção, André Malraux perguntou impaciente: "E o homem atropelado por um bonde?" A pergunta só teve, como resposta, gélidos olhares, e Malraux não insistiu. Há porém uma voz no íntimo de todos nós que insiste. Fomos privados da crença na sobrevivência pessoal, na imortalidade de um eu que amamos e odiamos mais profundamente que qualquer outra coisa, e a cicatriz desta amputação nunca desapareceu. Morrer na barricada ou como mártir da ciência, compensa de algum modo; mas, e o homem que é atropelado por um bonde, ou a criança que se afoga? O homem gótico tinha resposta para a pergunta. O que parecia acidente integrava-se num desígnio mais elevado. O destino não era cego; tempestades, vulcões, inundações e pestes, tudo obedecia a uma misteriosa vontade; o homem era dominado do alto. Canibais, esquimós, hindús e cristãos — todos têm resposta para esta pergunta das perguntas que, não obstante reprimida, ridicularizada, envergonhadamente oculta, contínua a ser o último e decisivo regulador de nossas ações. Mas a única resposta que Malraux recebeu, depois de um doloroso silêncio, foi: "Em um sistema socialista perfeito de transportes, não haverá acidentes".

III

Depois da primeira Guerra mundial os sentimentos de frustração explodiram. Varreu toda a Europa um desejo acumulado de fé, de absoluto, de alguma coisa em que acreditar. Então viu-se a volta dos instintos reprimidos; o córtex havia tido sua oportunidade e malograra, e o tálamo vingava-se. Houve uma descarga elétrica a qual assumiu diferentes formas segundo as condições locais diferentes. Em alguns países foi ela retardada pelos efeitos calmantes da vitória; invadiu alguns deles uma onda hedonística, uma orgia de jazz e cópula. A volta à fé cristalizou-se em dois fenômenos históricos de importância: o fascismo e o mito soviético.

Devo notar imediatamente que, por mito soviético, não entendo os desenvolvimentos reais da União Soviética, porém o reflexo psicológico que eles têm na esquerda européia. Tentarei provar que, como todos os mitos genuínos, ele correspondeu a certos desejos profundos e inconscientes, quase independentes da realidade histórica que se presumia refletir; exatamente como o mito cristão continua a não tomar conhecimento de qualquer descoberta histórica sobre a personalidade real de Jesus de Nazaré e seus íntimos.

IV

Nem os mitos fascistas nem os soviéticos eram construções sintéticas, mas revivescências de arquétipos, e portanto ambos capazes de absorver não só o componente cerebral mas ainda o homem em sua totalidade; ambos forneciam uma saturação emocional.

O mito fascista é explícito. O ópio é distribuído abertamente pelos líderes às massas. Os arquétipos do Sangue e da Terra, do Super-homem matador-de-dragões, as divindades do Valhalla Na mitologia nórdica ou escandinava é o local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha e os satânicos poderes dos judeus foram sistematicamente mobilizados a serviço da Nação. Metade do gênio de Hitler consistiu em atingir em cheio os acordes do inconsciente: o restante foi fornecido por seu ecletismo sempre alerta, o gosto pelos métodos hipermodernos de vanguarda na economia, na arquitetura e na guerra. O segredo do fascismo é a renovação de crenças primitivas dentro de uma moldura ultramoderna. O edifício nazista foi um arranha-céus abastecido com água quente canalizada de fontes subterrâneas de origem vulcânica.....

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