quinta-feira, 4 de junho de 2020

Contos de Perplexidade e Êxtase

"Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo


Contos de Perplexidade e Êxtase

Livro em Português

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Autor: Marcel Schwob
Palavras: 30.709
Tradução: Carlos U. Pozzobon


Para este escritor de vida breve (1867-1905), o paradoxo é a própria essência da vida, em cujo desenrolar o destino humano encontra seu fim na auto-aniquilação produzida pela alucinação de uma ideia, de um desejo, de um sonho. Para Schwob, que foi estudioso das culturas greco-romana e medieval, a literatura se confunde com a natureza dos homens incapazes de deter um pensamento, uma obsessão, que podem ser tanto o desejo de encarnar um deus, ou a danação de sucumbir a uma paixão incontrolável.

Em cada conto, consegue com uma maestria peculiar de umas poucas frases criar o personagem que irá seguir seu destino de crueldade ou santidade, de fanatismo ou de profecia. Talvez porque as dicotomias que compõem a razão humana se assemelhem em algum momento. Não sabem onde começa o sonho e onde termina a realidade. O destino quase sempre é infame, mas ele traz uma revelação que o personagem não consegue duvidar.

Esta característica dual está na raiz dos contos de Schwob. Ele foi um dos predecessores de Borges, e não por acaso o argentino prefaciou a edição espanhola de seu livro A Cruzada dos Meninos. Neste conto, o resgate efetuado por Schwob vai muito além da mera perplexidade: faz parte daqueles momentos em que a humanidade parece tomada por uma histeria coletiva: "o fato é que durante 2 séculos a paixão de resgatar o santo sepulcro dominou as nações do Ocidente, não sem maravilha, talvez, de sua própria razão... No princípio do século XIII, partiram da Alemanha e da França duas expedições (cruzadas) de meninos. Acreditavam poder atravessar de pé enxuto os mares. Não os autorizavam e protegiam as palavras do Evangelho deixai vir a mim os pequeninos e não os impedis (Lucas, 18:16) ?; não havia declarado o Senhor que basta a fé para mover uma montanha (Mateus 17:20)?", pergunta Borges. A coluna de meninos peregrinos foi engrossando por todos os vilarejos por onde passava. A adesão de outros meninos à causa era tão esmagadora que as estradas se encheram de pequenos peregrinos. A coluna se dividiu, uma indo em direção à Marselha e outra à Gênova. Fora mandada aos mares para aliviar a pressão das cidades tomadas de meninos. O destino desses garotos é contado magistralmente por Schwob usando a voz de diversos narradores. E a missão, naturalmente, termina na mesma perplexidade com que havia começado.

Assim são os Contos de Perplexidade e Êxtase que a Pzz Editora selecionou das obras de Marcel Schwob. A cada nova história, um mergulho no abismo e ao mesmo tempo, uma estranha impressão de que o homem é o mesmo em qualquer época, que todos os exemplares humanos se repetem em outros lugares como se uma estranha programação do universo forçasse os homens para fazer aquilo que só entrevemos nos sonhos, e muito mais, nos pesadelos.



Índice

Prefácio: A Cruzada dos Meninos (1896)
Descrição do Goliardo
Descrição do Leproso
Descrição do Papa Inocêncio III
Descrição dos Três Pequeninos
Descrição de Francisco Longuejoue, Clérigo
Descrição do Qalandar
Descrição da Pequena Allys
Descrição do Papa Gregório IX
O Rei da Máscara de Ouro (1892)
O Rei da Máscara de Ouro
A Morte de Odjigh
O Incêndio Terrestre
As Embalsamadoras
A Peste
Os Falsos Rostos
Os Eunucos
As Virgens de Mileto
Cruchette
Erostratos
Crato
Clodia
Petrônio
Lucrécia
O Capitão Kid
Walter Kennedy
Cyril Tourneur


Tendo em vista a pandemia do coronavírus, segue abaixo o conto A Peste

A Peste

A Auguste Bréal
CCCCI e mille l’an corant
Nella città di Trente Rè Rupert
Volle lo scudo mio esser copert
De l’arme suo Lion d’oro rampant
Cronica del Pitti

Eu, Bonacorso de Neri de Pitti, filho de Bonacorso, gonfaloneiro de justiça da comuna de Florença, cujo escudo foi coberto no ano de quatrocentos e um, por ordem do Rei Rupert, na cidade de Trento do Leão de Ouro rampante, quero contar aos meus nobres descendentes o que me aconteceu quando saí a correr mundo em busca de aventuras. No ano MCCCLXXIV [1374], sendo um jovem sem dinheiro, fugi de Florença para as infindáveis estradas com Matteo de companheiro. A Peste devastava a cidade. A doença surgiu de repente e atacava na rua. Os olhos tornavam-se vermelhos e ardentes, a garganta rouca, o ventre inchava. Depois, a boca e a língua cobriam-se de pequenas bolhas cheias de água irritante. As pessoas ficavam sedentas. Uma tosse seca sacudia os doentes durante várias horas. Logo, os membros ficavam enrijecidos nas articulações, e a pele ficava salpicada de manchas vermelhas inchadas que provocavam ínguas. E finalmente os mortos apresentavam uma aparência retesada e esbranquiçada com as feridas sangrentas e a boca aberta como uma corneta. As fontes públicas exauridas pelo calor estavam rodeadas de homens curvados e magros que tentavam mergulhar a cabeça. Muitos se precipitavam e eram retirados por ganchos em correntes, negros de lodo e com o crânio fraturado. Os cadáveres ressequidos espalhavam-se por inúmeras valas por onde corriam, na estação, as torrentes de chuva; o odor era insuportável e o medo, terrível.

Mas sendo Matteo um grande jogador de dados, nos animou logo que deixamos a cidade e nos metemos na primeira adega para bebermos um vinho em saúde de nossa mortalidade. Havia ali mercadores de Gênova e Pádua. Com os dados chacoalhando nas mãos os desafiamos, e Matteo ganhou doze ducados. De minha parte, desafiei-os ao jogo de cartas, quando tive a felicidade de ganhar vinte florins de ouro, e com os ducados e florins compramos mulas e um carregamento de lã. Matteo, que tinha decidido ir para a Prússia, fez uma provisão de açafrão.

Percorremos os caminhos de Pádua e Verona; retornamos a Pádua para nos suprir com mais lã e viajamos diretamente a Veneza. De lá, passando ao mar, entramos na Eslavônia e visitamos as belas cidades até os confins da Croácia. Em Buda caí doente de febre. Matteo deixou-me sozinho no albergue com doze ducados, retornando a Florença onde lhe aguardavam os negócios e aonde eu deveria ir reencontrá-lo. Eu jazia sobre uma cama seca e empoeirada, sobre o colchão de palha, sem médico e com a porta aberta para a sala de beber. Na noite de São Martinho, apareceu uma companhia de tocadores de pífaros e flautistas, com quinze ou dezesseis soldados venezianos e tedescos. Depois de esvaziarem inumeráveis garrafas, esmagarem as taças de estanho e quebrarem os cântaros contra os muros, começaram a dançar ao som de pífaros. Passaram pela minha porta com seus rostos sadios e rosados e, vendo-me estendido no colchão, quiseram levar-me para a sala gritando: “ou bebes ou morres!”; depois caçoaram de mim enquanto a febre me latejava a cabeça e acabaram por me enfiar na palha do colchão cuja abertura foi atada em volta do meu pescoço.

Suei abundantemente, e minha febre sem dúvida dissipou-se, ao mesmo tempo em que fiquei com raiva. Meus braços estavam petrificados e, como tinham tirado o apoio de minha cabeça, eu dava coices eriçado pela palha no meio dos soldados. Porém, eu trazia à cintura, debaixo do calção, uma curta lâmina embainhada; consegui deslizar minha mão até lá e cortar a capa do colchão.

Talvez a febre ainda me inflamasse o cérebro, mas a recordação da peste que havíamos deixado em Florença, e que depois se propagou pela Eslavônia, misturou-se no meu espírito a uma espécie de ideia que me fez por alucinação ver Sylla, o ditador dos latinos, de quem fala o grande Cícero. Ele se parecia, diziam os atenienses, a uma velha salpicada de farinha. Resolvi aterrorizar os soldados venezianos e tedescos: como me encontrava no meio do reduto onde o estalajadeiro guardava suas provisões de frutas em conserva, rapidamente arrebentei um saco cheio de farinha de milho. Esfreguei o corpo com a farinha e, quando fiquei com uma aparência entre branco e amarela, fiz com a faca um corte no braço de onde tirei suficiente sangue para sujar irregularmente minha indumentária. Depois reentrei no colchão e esperei os bandidos bêbados. De fato, logo chegaram rindo e cambaleando: mal viram minha face esbranquiçada e sangrenta se espantaram gritando entrechocados: “A peste! A peste!" Não recuperei as minhas armas porque a estalagem estava vazia. Sentindo-me restabelecido pela transpiração que me impuseram aqueles rufiões, tomei o caminho para Veneza a fim de me juntar a Matteo.

• • • • • • •

Encontrei meu companheiro Matteo errando pelos campos de Florença em uma situação difícil. Ele não ousara penetrar na cidade onde a peste continuava a enraivecer. Mudamos nossos planos e nos dirigimos para os Estados do Papa Gregório em busca de fortuna. Subindo para Avi­hão, cruzamos bandos de homens armados de lanças, espadas e partasanas, pois os cidadãos de Bolonha tinham se revoltado contra o Papa a pedido dos florentinos (o que ignorávamos). Ali fizemos alegres jogos com as gentes de ambos os lados do conflito, tanto no baralho como nos dados, até que nossos lucros somavam trezentos ducados e oitenta florins de ouro.

A cidade de Bolonha quase não tinha gente, e fomos recebidos nas saunas com gritos de alegria. Os quartos não estavam cheios de palha como em muitas cidades lombardas; não faltavam camas, ainda que as tiras de couro estivessem quase todas rotas. Matteo encontrou uma florentina conhecida, Monna Giovanna; de minha parte, não pensei jamais em saber o nome da minha, pois estava contente.

Ali bebemos em abundância: vinho encorpado da região e cerveja, e comemos doces e tortas. Matteo, a quem eu contara minha aventura, fingindo ir à latrina desceu até a cozinha e retornou vestido com uns trapos ridículos disfarçando que tinha peste. As garotas dispararam em altos e agudos brados até se certificarem e voltarem para tocar, ainda medrosas, a face de Matteo. Monna Giovanna não quis mais ficar com ele e ficou tremendo num canto, dizendo que ele cheirava à febre. Enquanto isso, Matteo, bêbado, pôs a cabeça entre as canecas sobre a mesa, que seus roncos faziam tremer, parecendo-se com as figuras de madeira pintadas que os charlatães mostram nas ruas.

Finalmente deixamos Bolonha e, depois de diversas aventuras, chegamos perto de Avinhão, onde ficamos sabendo que o Papa havia ordenado a prisão de todos os florentinos e mandado queimá-los, a eles e a seus livros, para se vingar da rebelião. Fomos avisados muito tarde, porque os esbirros do marechal do Papa nos surpreenderam durante a noite e nos lançaram na prisão de Avinhão.

Antes de sermos interrogados, fomos examinados por um juiz e provisoriamente condenados à masmorra, a pão seco e água, até depormos conforme prescreve a justiça eclesiástica. Consegui, todavia, esconder sob minhas roupas nosso saco de pano que continha um pouco de polenta e azeitonas.

O chão da masmorra era pantanoso, e não tínhamos ar além de um respiro gradeado que se abria ao rés da terra sobre o canto da guarda.

Nossos pés haviam passado por buracos de pesados cepos de madeira, nossas mãos frouxamente atadas a correntes de tal maneira que nossos corpos se tocavam desde os joelhos até os ombros. O guarda de turno nos fez o favor de dizer que éramos suspeitos de envenenamento, porque o Papa soubera por certos embaixadores que os gonfaloneiros da comuna de Florença mantinham o desígnio de matá-lo.

Assim, estávamos na escuridão da prisão não ouvindo o mínimo ruído nem sabendo a hora do dia e da noite e com grande risco de sermos queimados. Recordei-me então do nosso estratagema, e nos veio a ideia de que a justiça papal por terror da doença nos expulsaria para fora. Peguei com pena a minha polenta, e combinamos que Matteo iria rabiscar seu rosto e sujá-lo de sangue enquanto eu gritaria para atrair os esbirros. Matteo arranjou a sua máscara e começou a gritar roucamente como se a garganta estivesse engasgada. Invoquei Nossa Senhora ao sacudir minhas correntes. Mas a masmorra era profunda, a parede espessa e era noite. Durante várias horas suplicamos inutilmente. Cessei meus gritos enquanto Matteo continuava a gemer. Dei-lhe uma cotovelada para que ele repousasse até a alvorada: seus gemidos tornaram-se mais fortes. Toquei-lhe na escuridão; minhas mãos alcançaram seu ventre que parecia inchado como uma ostra. E então o medo me invadiu: estava colado a ele. E enquanto ele gritava com uma voz rouquenha: "Quero beber! Quero beber”, até o que me pareceu ser o apelo desesperado de um cão, a palidez do dia nascente surgiu no respiradouro. E então um suor frio percorreu meu corpo, pois sob sua máscara poeirenta, sob as manchas de sangue ressequido, vi que ele estava lívido e reconheci as crostas brancas e a exsudação vermelha da peste de Florença.