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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Aníbal Machado - Telegrama de Ataxerxes

"Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo

O TELEGRAMA DE ATAXERXES

a José Paulo Moreira da Fonseca

[Texto original digitalizado da edição em papel de A Morte da Porta Estandarte e outras histórias de Aníbal Machado. Meus comentários seguem entre colchetes com destaque. O objetivo da publicação neste blog é a didática da construção literária e a perspicácia do tema relativamente a realidade brasileira do poder].

ALTAS horas de uma noite nublada de dezembro. Ataxerxes lembrou-se de uma coisa e começou a caminhar agitado pelo quarto. Pisava forte, esbarrava nos objetos, rasgava estrepitosamente os jornais; mas sua mulher, exausta pela trabalheira do dia — consertos de estacas, irrigação de plantas — nunca mais voltava de seu sono de camponesa.

Tinha pressa Ataxerxes em dar-lhe a notícia naquele instante mesmo. Receando aborrecê-la com um apelo direto, esperava despertá-la com os barulhos que promovia. Escancarou a janela, deixou entrar o vento; abriu a torneira, fez jorrar a água. Já os cães latiam, as galinhas cacarejavam assustadas. Nos vales próximos, ouvia-se a resposta de outros bichos. A casinha de Ataxerxes animava-se toda. Como dorme Esmeralda! No quarto vizinho, Juanita acordava.

[Nestes dois parágrafos, o texto introduz o leitor para a realidade social de Ataxerxes e família: a vida rural].

— Que foi, pai? Alguma desgraça?
— Nada; tua mãe que dorme.
— Que queria você que ela fizesse?
— Que acordasse.
— Que ideia. Para quê?
— Uma notícia.
— Boa?
— Maravilhosa.

Juanita se ergueu num salto lesto.

— Diga, pai, diga depressa. A gente fica neste fim do mundo esperando toda vida uma notícia! E você disse que a sua é maravilhosa. Conte, pai, conte logo....
— Espera que tua mãe acorde. Esmeralda! Esmeralda! — gritou. A mulher se mexe ronronando. — Uma notícia sensacional para nós!
— Sorte grande? pergunta ela numa voz empapada de sono. Fecha primeiro essa janela, homem de Deus.
— Quase, Esmeralda... Um achado.
— Diamante? — tornou ela de novo, com mal definido toque de sarcasmo, virando-se contra a parede.
— Escuta, Esmeralda, escuta... Nossa vida vai mudar. Olha para mim... E prosseguiu, enfático: — Acabo de descobrir que o Chefe da Nação foi meu colega! Colega de colégio. Estamos feitos na vida. Era Zito o apelido dele. Meu Deus, como é que só agora pude me lembrar! Deixa eu te abraçar... Iremos para o Rio. Vamos viver agora!

Salvo Esmeralda, nenhum ser vivo dormiu mais aquela noite no pequeno sítio.

E enquanto Ataxerxes traçava planos para o futuro, Juanita, no corredor, dançava de alegria, pensando no mar e na grande cidade que ia ver pela primeira vez.

[Está lançado o argumento do conto. Também fica esboçado o perfil interiorano dos personagens, mas ainda não temos a dimensão temporal da história].

Sete dias depois, desciam os três as rampas da Mantiqueira e da Serra do Mar, rumo ao litoral.

Ataxerxes pensava no esboço do telegrama que ia endereçar ao presidente; Juanita, à janela, esperava as curvas em que a locomotiva se exibia de corpo inteiro, a puxar o seu comboio; Esmeralda, o nariz esmagado na vidraça, olhava para as colinas pontilhadas de reses e se lastimava, cheia de apreensões: "ah, justamente agora o milho estava granando, três vacas esperando bezerro!..."

O marido interrompeu-a: — Nem sei, Alda, como explicar: aquilo me bateu de repente na cabeça, e eu acordei com a imagem de Zito!...

A noite, já o expresso deslizava entre praças e ruas iluminadas. Cruzava outros trens, apitava. Esmeralda assustando-se com o estrépito louco nos viadutos e pontilhões.

Juanita observava tudo com avidez. Desde que entrara no carro até àquela hora, não deixara um instante de acompanhar as mutações da paisagem, o pitoresco das estações e lugarejos. Intimamente, foi-se fazendo amiga do trem que a conduzia. Um sonho tudo aquilo.

[Temos uma viagem de trem longa e sabemos, pela construção das paisagens, quão distante a capital estava da vida dos personagens].

Ruas apinhadas, bondes, a campainha dos cinemas de subúrbio, as moças de roupas coloridas; amanhã mesmo será uma delas a andar pelas ruas. Ataxerxes chega à janela, comovido. A grande metrópole vai aparecendo grandiosa e feia. Nela, o trono de Zito.

A cidade sorri pelas miríades de janelas de seu casario aceso. Faróis, anúncios luminosos. Dali o Chefe da Nação irradiava o seu poder, mandava e desmandava. Ataxerxes será um dos favoritos de sua corte.

O amigo retardatário do presidente prepara-se para desembarcar. Está pálido. Esmeralda persigna-se, guarda o rosário. O trem vai perdendo as energias e se deixando morrer na plataforma. Logo depois, pela janela do vagão, saem sacos, cestos e velhas malas da fazenda. Em seguida, pela porta de trás, os Ataxerxes.

[A intenção de Ataxerxes é revelada: ser um dos favoritos da corte do presidente. E o azáfama da cidade grande é criado na sua impessoalidade].


À janela da pensão Estrela do Norte, onde se instalaram, Juanita ficou até altas horas a contemplar a metrópole. Como começar? A que apelos atender, em que mistérios se iniciar? Mas onde estaria mesmo a cidade? Ali é apenas um trecho lívido e deserto de quarteirão, escondendo o crime, escondendo o amor.

Põe-se a imaginar no homem desconhecido que atravessará a sua vida. Ele chega, quer abraçá-la, ela foge. — "Mas por quê, meu bem? Olha para o jardim... Cada árvore tem debaixo um casal se abraçando. A nossa… — Não te conheço, vai-te embora. — O meu abraço te informará de mim… — Não; tu és um estranho... não posso. — Para que vieste então? Não sei como vim... Nem sei se vim a teu chamado. Vai-te embora. — Por que então estás chorando?..."

Mas logo se interrompe o colóquio, a imagem do namorado fantasma se dissipa. E longo calafrio passa pelo corpo de Juanita.

Vultos lá embaixo se distinguem à luz dos combustores; chega de longe um barulho difuso, e Juanita imagina que a hora de o mar espraiar a sua alma pelo céu da cidade... De baixo sobe um cheiro nauseante da cozinha. Cessou a discussão nos fundos de uma casa ao lado. A moça continua debruçada à janela e sente envolver-se numa nuvem de melancolia. Depois se agita. Faz menção de descer e mergulhar nas ruas mais próximas, curiosa de saber onde elas iam acabar.

— Vai-te deitar, Juanita. Isso são horas, menina? — grita-lhe a mãe.

Ela se assusta e obedece. "Amanhã! amanhã!" disse consigo, metendo-se debaixo dos lençóis.

No dia seguinte, ao grito das buzinas, pregão dos vendedores, e ao rascar das portas de aço se abrindo — a cidade fazia pressão nas janelas de Juanita, entrava-lhe pelas frestas com os raios do sol e um cheiro desconhecido. Veste-se num minuto e sai a descobri-la, enquanto a mãe procura a igreja mais próxima.

A moça vai sem direção, como que embriagada. Entre cubos de cimento o sol se despejava.

Juanita caminha... Quando suas pernas a conduzem para os pontos mais quietos, fica aflita por encontrar os de maior movimento. Que cidade é essa que tanto se assemelha à que vai surgindo do fundo de sua memória?

Estaria pisando alguma calçada de rua do Oriente onde o seus antepassados paternos negociaram, ou realmente no Rio de Janeiro com que sempre sonhara? Juanita caminha... E aparecem as praças. Pára extasiada a vê-las encher-se da multidão que deságua de todos os quadrantes. Para onde se dirige essa gente? E que vai fazer com tamanha pressa?

Era esbelta de linhas e rija de corpo. Se não fosse tão ligeira, não se sabe o que seria dela aquele dia ante a ameaça de tantos veículos.

Perambulou por todos os cantos, até exaurir-se. Entrou tarde. Esmeralda não sabia como começar a repreendê-la. Acenou para o marido, a pedir reforço.

[À medida que desenha o azáfama da cidade grande, penetra no olhar de Juanita e sua reação ante a vida social do ambiente, seu provincianismo púdico ante o comportamento cosmopolita, apontando uma origem étnica da família].

Ataxerxes fazia modificações no telegrama. — Larga esse papel, Xerxes. Vê se isso é hora de nossa filha chegar!

Mas o contentamento de reencontrar Juanita, que supunha perdida ou morta, encheu-lhe os olhos de lágrimas. Não podendo ralhar, abraçou-a.

— Cuidado com a cidade, minha filha. Quase morri de aflição. Nunca mais repitas isso. Estás suada, cansada.

E Juanita, o rosto febril, as olheiras acusadas, responde: — Mamãe, é uma maravilha! Já aprendi quase tudo (citava as avenidas e praças principais). Iremos juntas agora. Acho que mexeram muito comigo, mas eu fui passando. O que não encontrei ainda foi o Palácio onde está o amigo de papai.

A essas palavras, Ataxerxes estremece. Sabe que daquela pensão reles ao Palácio a que acaba de referir-se a filha, seria a distância encurtada por um telegrama. Era justamente do que estava tratando. O telegrama capital de sua vida. Já o vinha concebendo desde a noite da revelação, no sítio de Pedra Branca.

Ao sinal do jantar, a família desce para a sala de refeições. Esmeralda caminha de má vontade para aquela experiência difícil.

Os hóspedes eram gente indistinta, pessoas em geral de meia idade, algumas crianças — e um tipo estranho na mesa do fundo, a ler os crimes, em frente à sopa fria. A comida devia ter o mau gosto do cheiro que trescalava. E como todos pareciam enjoados dela, Esmeralda pensa que é por hostilidade aos recém-chegados. Juanita se escandaliza com a lepra da ferrugem que roía os espelhos. Ataxerxes põe os óculos e começa a percorrer o menu. O papel manuscrito que levara ficou-lhe ao lado do copo. Esmeralda sente-se mal vestida. Não sabe que prato escolher, parece que todo mundo os observa. Exaspera-se na indecisão. Acha que a luz devia apagar-se ou, pelo menos, ser reduzida. Todos irão vê-la comer.

— Xerxes, eu queria que você me arranjasse uns óculos escuros. Me sentirei mais à vontade atrás deles.

[Fica esboçado o ambiente da pensão pelos primeiros personagens e a natureza da refeição].

O garçom, ao lado, baixa os olhos ao papel. Não tinha intenção de lê-lo. Mas o vai percorrendo distraidamente, aos pedaços. Deve ser a minuta de algum telegrama. Os termos são afetuosos. Dá com o endereço, e como que acordando do estado de torpor, arregala os olhos. O Chefe da Nação! Aquele freguês estava se dirigindo ao Chefe da Nação!... E em termos da maior intimidade!

Alguns minutos depois, quase toda a sala olhava para a mesa dos Ataxerxes. À porta reponta o rosto, cheio de espanto, da dona da pensão; depois é o do marido que surge, ainda mais espantado.

João Ataxerxes fitava o retrato do Presidente colocado em destaque na parede, ao lado da gravura de uma odalisca a sair do banho. Comentava qualquer cousa a respeito, movimentando as mãos gravemente. Que estaria dizendo? Ficam intrigados os hóspedes. O garçom é quem devia estar ouvindo as palavras correspondentes àquela gesticulação. Era para produzir efeito em todos e ser ouvido pelo garçom que Ataxerxes discreteava sobre a infância do Presidente, em face mesmo de seu retrato.

Agora, é a dona da pensão que vem em pessoa servir a sobremesa. Não passou despercebida aos demais hóspedes a significação daquela gentileza.

[Subitamente Ataxerxes se torna importante e reverenciado pelo simples expediente de se dizer amigo do presidente. O autor coloca em ação a instrumentalização da realidade social brasileira através do paternalismo político e da pistolagem disfarçada em meritocracia que vai desenvolver no conto].

Dona Cacilda começa a sorrir para eles, como que pedindo entrada na conversa. Acaba tomando parte nela:

— Ah, então o senhor o conhecia?
— Pois se fomos companheiros de infância, minha senhora!
— Ahn! exclamou boquiaberta.

Dentro em pouco, outros hóspedes foram se avizinhando da mesa, e, ao café, estavam todos ouvindo Ataxerxes, enquanto a mulher e a filha saíam para o hall. Dois casais, além dos donos e a filha, um rapaz vistoso e alguns senhores de fisionomia abatida bebiam-lhe as palavras:

— Desde menino se revelara de uma inteligência peregrina. Falava pouco, usava um casaco de lã que nós invejávamos muito... Oh, há quantos anos isto! Parece que o estou vendo ainda, a correr atrás da bola, no futebol de nosso tempo!…

Às vezes, passava horas inteiras num mutismo misterioso, afastado dos colegas, como se pressentisse a responsabilidade do futuro. O Zito!... O Zito!... Vivia perdendo a escova de dentes. Uma vez, escorregou no banheiro e fraturou o braço. Sempre magro. Nesse ponto, o retrato não confere com o tipo da criança. Nossas camas eram quase pegadas. Hoje está calvo, mas possuía bela cabeleira.

Esses detalhes, sobretudo o da escova de dentes e o do banheiro, davam aos ouvintes a sensação de que também eles estavam entrando na intimidade do Presidente. — Não acha melhor irmos aqui para a sala? propôs uma senhora, entusiasmada com a conversa.

— Seus olhos, prosseguia Ataxerxes sem atender, eram de um castanho-claro, sei que agora estão completamente azuis, naturalmente com a idade e o exercício do poder tudo isto vai mudando…

E todos contemplavam o retrato a que o homem se reportava a cada momento, como um professor de geografia que recorre ao mapa.

— Aquele ombro de lá, o esquerdo, do lado da odalisca, sempre foi um pouco caído, mas, como veem, é um físico de chefe!

Com desagrado de todos, um chamado de Juanita interrompeu a palestra.

— E que coração! disse Ataxerxes em voz alta, ao retirar-se. E já na soleira da porta: — Com o tempo lhes contarei outros episódios, prometeu despedindo-se. Acompanhando a mulher e a filha, saiu a passear pelas ruas iluminadas. Havia muitos anos que não vinha ao Rio. Esmeralda e Juanita, era a primeira vez.

[A súbita promoção pessoal de Ataxerxes eleva sua autoestima a medida que fala dos tempos de amizade colegial com o presidente. A sociedade ao seu redor lhe confere a importância com que pode tirar de um homem que, desfrutando da intimidade do poder, pode premiar aos que consigam cair na admiração do amigo para obtenção de um privilégio. Esta é a dinâmica do conto].

Ataxerxes foi-lhes explicando as transformações da Capital. Estava muito diferente. — É o cimento armado, Esmeralda: o cimento armado é um demônio!

Sentiu uma ânsia de incorporar-se imediatamente à cidade, ser alguém naquele turbilhão. Falou no telegrama, esperava conclui-lo dentro de poucos dias. — Que é de Juanita?... Menina! — gritou-lhe o pai — você vai logo correndo e se desgarrando da gente. E para a mulher, baixinho: — Não sei o que dá nela; fica aflita a querer dançar na frente dos outros. — Sempre foi assim, Xerxes, respondeu Esmeralda. Você não se lembra, no sítio, aquela mania de imitar o movimento das bananeiras?

Antes que voltasse à Esmeralda a evocação de Pedra Branca, o marido chamou-lhe a atenção para as vitrinas e para a multidão que acorria às diversões: — Imagine você que é sempre assim, Esmeralda. Todas as noites essa animação. E nós perdendo isso!

— Não sei como não se cansam e não enlouquecem, observou a mulher friamente. — Meu Deus, lá vai Juanita fugindo outra vez! Gritou: — Juanita! Juanita!…


Sonhavam os donos da pensão com um empréstimo na Caixa Econômica. Não era apenas o interesse material de transformarem a Estrela do Norte num luxuoso hotel com elevadores e jardim de inverno; era sobretudo por questão de capricho: Pietro Zamboni, cunhado de D. Cacilda, tivera também uma pensão reles como a Estrela do Norte; de repente prosperara. Entre os irmãos Zamboni havia velha rivalidade que D. Cacilda, mulher temperamental, transformava em ódio de família. Miguel acusava Pietro de gatuno e aventureiro; afirmava ser seu hotel um antro de contrabandistas e mulheres suspeitas. Por sua vez, Pietro e a mulher telefonavam aos hóspedes de Estrela do Norte, recomendando-lhes que se acautelassem com a comida: muita gente saíra, ali, da mesa de refeições para a do necrotério. Presentemente, Pietro quase não dava sinal de si. Instalado no último apartamento do arranha-céu que possui em Copacabana, com terraço de onde contempla de binóculo o oceano, já não se preocupava em perseguir Miguel, mas este, incitado pela mulher, sonha vingar-se à altura e vê a sua vingança concretizar-se em vários andares de cimento armado subindo, subindo, até que ele possa, do último, cuspir no terraço de Pietro. Para isso, seria necessário fazer um empréstimo. Ataxerxes caíra-lhe do céu: com o prestígio de íntimo do Presidente, seria fácil o negócio.

[O autor descreve a rivalidade entre dois irmãos, donos de pensão, sendo que um deles obtivera o sucesso empresarial por conta de um empréstimo no mesmo ramo de hospedagem do Miguel Zamboni, dono da pensão Estrela do Norte. A rivalidade entre os dois é importante para assinalar a atmosfera de desdém e desprezo que permeia as relações sociais entre os mais e os menos favorecidos].

— Vou arranjar-lhe um aposento melhor do lado do sol —, veio dizer a dona da pensão a Ataxerxes. — Não pagará mais por isto. Ataxerxes, apoiado o cotovelo na mesa da sala de espera, a mão na testa, não queria ser interrompido no momento. Seu telegrama já devia ter seguido e ainda estava em elaboração, o papel todo riscado. Era penosa a procura de alguns adjetivos; os advérbios chegavam com dificuldade, as frases não se articulavam direito. O telegrama precisava ser redigido de forma a produzir efeito fulminante na alma do Presidente...

Pela primeira vez Ataxerxes experimenta a sensação física das palavras. Pena não ser como esses escritores famosos que lidam com elas e sabem manipular todos os sentimentos. Agora, por exemplo, precisava suscitar no Presidente uma impressão de volta à infância; em seguida, de poder pessoal — o que seria fácil; depois, de piedade pelos fracassados da vida; aí então, já na fase final, o coração do Presidente estaria preparado a receber a semente do pedido. Mas as palavras resistiam; às vezes vinham dóceis, como que minando do papel, e Ataxerxes se alegrava. Seu esforço agora era mais de artista do que de candidato a emprego. Lembrou-se, porém, de que D. Cacilda ainda se achava ali perto, imóvel, à espera da resposta e do agradecimento: — Pois não, disse com atraso, pode fazer a mudança.

Não conseguiu mais escrever. A gentileza da dona interceptara-lhe a inspiração. Atrapalhou-se. Enquanto isto, o vento do corredor ia levando as folhas manuscritas para a porta da rua. Ataxerxes corre, inclina-se para apanhá-las; mas o vento veio de novo, as folhas escapuliram. Uma delas pousou no asfalto úmido, a outra ficou adejando entre as mesas de um café em frente. Ataxerxes entra no café, recolhe o telegrama ainda no ar, depois de atropelar os fregueses e virar duas mesas; quando ia apanhar a outra folha, apareceu um caminhão veloz, a roda passou por cima e foi levando-a colada ao pneumático para os lados da Rua Larga.

Ataxerxes disparou aos gritos: — É o meu telegrama! Pára! pára!...

Mas era tarde. Quedou-se desesperançado... Parecia-lhe que naquela roda que fugia com o telegrama, fugia também o seu ideal.

Volta desconsolado para o hotelzinho. Narra o sucedido à mulher que procura consolá-lo: — Para que se amofinar? Você fará de novo a outra parte.

— Isso é o menos, Esmeralda. E se a cidade vem a conhecer certos detalhes privados, o apelido, as antigas manias do Chefe da Nação?! Passava a mão na cabeleira, aflito: — Quando penso que todas essas cousas íntimas estão rolando agora pelas ruas, parece que traí o meu amigo. Fui colega dele na infância; sou alguma cousa, portanto; devo honrar esta amizade. Você já pensou bem, Esmeralda, o que é ter sido colega do mais alto magistrado de um país?!
— Mas o papel desaparece, Xerxes, vai parar no lixo...
— É um engano! Vai parar nas mãos de alguém, é o que você devia dizer. De algum aventureiro... Parece até que o estou vendo; apanha o rascunho, completa-o, faz um pedido, assina depois o nome... Ah, o impostor... Vai ter uma alta colocação!

Olha para a chuva, através da vidraça: — Talvez a que me estava destinada...

Esmeralda encarou-o condoída. E como se advertisse a uma criança: — Xerxes, estamos velhos demais para recomeçar a vida. Vamos voltar, vamos!

Tudo poderia passar pela cabeça do marido; aquele pensamento, não, Voltar!... Tinha graça...

— Oh, Esmeralda, o telegrama nem seguiu e você já cuida em voltar, gritou-lhe o marido, depois de uma pausa de espanto. Nesse momento, entrava Juanita, de fisionomia murcha.

[Um incidente com o telegrama inicia uma atmosfera de paranoia e desconfiança com os propósitos de sua missão. Agora o autor reverte a situação de otimismo de Ataxerxes para a de um homem aflito].

— Ah, papai, hoje eu vi o mar de perto!
— Por que então esse ar triste?
— Tive uma decepção. Não é o que eu esperava...
— Como querias que o mar fosse, minha filha?
— Diferente da água sem vida que partia de meus pés. Oh... aquela extensão calada! Nunca supus...

Pai e mãe interrogam a filha com o olhar, sem compreendê-la.

— Queria que ele se mexesse, mamãe; que fosse mais soberbo!

Dona Cacilda apareceu com a empregada. Vinha fazer a mudança para um apartamento mais condigno. Era a primeira homenagem prestada a um amigo do Presidente.


A vida começava a sorrir para os Ataxerxes. Hóspedes e donos cercavam-nos de atenções. Esmeralda parecia indiferente. Metida sempre na igreja, rezava para que o marido fosse bem sucedido, para que a filha não se desencaminhasse. — "Juanita parece querer fugir de minhas mãos, pensava; o pai não quer trabalhar, só confia no acaso, já esqueceu Pedra Branca. Esta cidade é cheia de tentações. Que nela não se perca a minha Juanita."

Foi descendo os degraus lentamente. Contemplava o panorama do alto da escadaria. A cidade cinzenta pontilhava-se de luzes. Do Arsenal de Marinha espalhavam-se centenas de marinheiros, como de um colégio ao fim das aulas. As ilhas semelhavam capões de mato no chapadão da baía.

Com o tempo, cresceu a roda de Ataxerxes. De toda parte apareciam-lhe amigos, Caras novas. Figuras vorazes, rápidas, de olhos ardentes. Alguns o levavam aos cassinos onde travava conhecimento com homens prósperos e ativos, pessoas amáveis propondo negócios que não entendia bem, devido ao barulho do jazz e ao esplendor das girls. Pagavam-lhe a ceia, conduziam-no de carro até a porta da pensão. Eram cavalheiros obsequiosos, corretamente vestidos, todos muito apressados. Alguns tinham ciúmes dos outros.

Meses assim viveu Ataxerxes à sombra do telegrama, esperando resposta. Tê-lo-ia passado?... A dúvida inesperada fez refluir-lhe o sangue ao rosto, Sensação aflitiva de quem esquece o próprio nome ou o ano em que vive.

[Fica consignado o transcorrer do tempo, ao mesmo tempo em que começa um processo de confusão mental em Ataxerxes: ele não sabe mais distinguir com clareza se mandou o telegrama ou não. Isto é importante para não permitir uma decisão precipitada de sua parte e indicativo da perseverança no propósito que o trouxe à capital].

Cada vez que chegava pela madrugada, lamentava o tempo perdido na província. Olhava-se ao espelho, sentia-se grisalho e ruguento. Dava depois com o vulto da mulher dormindo, achava-a ridícula nessas horas. Fora de Pedra Branca, Esmeralda como que murchava. "É esquisito: lá eu gostava dela, aqui é um estorvo." E pondo-se a fumar na cadeira, donde a apreciava, descobria no corpo imóvel da companheira as linhas rígidas de um cadáver. Sacudia a cabeça para espantar o mau presságio; mas, quando adormecia, a mesma imagem voltava, cercado agora de uma ronda de girls seminuas que acendiam círios. Despertava agitado, a consciência doída.

— Alda! Alda! — acordava-a, com o sol já inundando o quarto. — Estive pensando que "magnânimo" fica melhor que "bondoso", não é? "Magnânimo" tem mais dignidade, qualquer coisa de romano; vai bem para um chefe. Bondoso sugere fraqueza. Vou botar "magnânimo".

— Não entendo, Xerxes...
— Estou dizendo que em vez de chamar o Presidente de "bondoso", resolvi botar...
— O quê! exclamou Esmeralda, o telegrama ainda não seguiu?!

Ataxerxes tem receio de dizer-lhe que não. Permanece indeciso, envergonhado. Não sabe como, foi deixando correr o tempo sem que mandasse o tal telegrama. Ou passou?!... Está na dúvida... Lembra-se de que havia entrado mais de uma vez nos Telégrafos. Ah, mas fora para um telegrama de felicitações pelo aniversário do Zito. E estava meio bêbedo. Pouco antes havia tomado a defesa dele e brigado.

Põe-se a puxar pela memória. Tudo nublado. "Gente, será que ainda não fiz seguir o tal telegrama? Já o havia relido a vários conhecidos, disso se recorda bem. Orgulhava-se de poder mostrá-lo aos outros. Parecia que só essa demonstração de prestigio lhe bastava. Tê-lo-ia esquecido nalgum café?

Ergueu-se febril, vasculhou os bolsos do casaco. Ah, lá estava ele! O seu telegrama, o seu destino! Mentiu cinicamente à mulher: — Este é o segundo, Esmeralda; mais completo...

Saiu à rua. Estava quase convencido agora de que não passara nenhum telegrama. Fora até melhor; terá ocasião de fazer ainda algumas modificações. Mas será mesmo necessário? pensou. Já se sentia criatura da casa do Presidente.

Nos bares, na pensão, na polícia, quando ali fora regularizar os papéis, em toda parte — era tratado e reconhecido como pessoa "chegada ao Catete". Cicios agradáveis o lisonjeavam. Para que telegrama? Se já foi, bem; se não, talvez nem seja preciso. O Chefe da Nação já devia ter conhecimento de sua estada na capital. Qualquer dia o chamaria.

Vai caminhando embriagado pela vida borbulhante das ruas. Subitamente para diante de uma vitrina. Gravatas! Quantas gravatas, meu Deus! E não só gravatas. Muitos objetos de toilette, caprichados, bons de pegar. E malas. Viajar! Decide ampliar sua ambição. Ao invés de inspetor de qualquer cousa ou chefe de repartição — ministro no Estrangeiro! Era das malas que vinha este apelo.

[A fantasia do poder é importante para a construção do conto, sem a qual Ataxerxes jamais adquiriria a exata dimensão que o autor quer estabelecer. Para isso criou o episódio da vitrine de gravatas].

Sua alma viaja... O vapor atracando, apitos, lenços acenando, cabecinhas louras no cais, música, uniformes... — Monsieur Ataxerxes! Mister Ataxerxes... o novo representante do Brasil, etc., etc.

Enquanto seu espírito desembarca no país estrangeiro, os olhos se voltam para as gravatas e mergulham nelas como num mar de sargaços. Algumas pendem como serpentes do galho de metal; outras parecem armar o bote aos transeuntes; outras se estiram no chão de veludo, como raparigas em repouso, numa alcova; outras circulam como peixes. Todas coloridas, maliciosas, oferecendo-se... Trêmulo de emoção, Ataxerxes compra uma. Segura-a como a um objeto mágico. Em suas mãos a gravata perde o fascínio; quer devolvê-la à zona hipnótica da vitrina. Mas já está paga. Sai.

O dia é belo, esplende ao sol a baía, os aviões rumorejam, passam mulheres perfumadas. Delicioso mundo, para que esta guerra? Como é bom ser amigo do rei...

[Agora a dimensão temporal se completa: o Brasil está envolvido em uma guerra e já se sabe portanto quem é o presidente invocado pelo conto].

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sábado, 30 de maio de 2020

A Insondável Matéria do Esquecimento — O Santo Tanso e o Pomposo Psicopompo

"Retirado en la paz de estos desiertos,
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Quevedo

Nada pode ser tão ruim que não possa piorar

No começo do milênio, o acaso de uma herança, o leilão de um prédio e a obstinação de um brasileiro forjado pelo sucesso do business americano o impulsionam a criar seu próprio HOTEL no Brasil — que termina virando palco do governo em exercício para formar alianças espúrias e envolver o país em uma malha de corrupção que lhe permita a perpetuação no poder via eleitoral.

Um intelectual irreverente, sardônico, com ideias fora dos padrões nacionais, age como desconcertante desmistificador do mofo ideológico revelado pelas principais figuras públicas nos eventos convocados pela situação e oposição dentro do hotel, conduzindo o romance para suas variantes hilárias, no debate que se trava entre representantes da esquerda jurássica (O Santo Tanso) e da direita naftalina (O Pomposo Psicopompo).

Em paralelo, o contraste entre esse homem que retorna ao Brasil esbanjando otimismo, e uma mulher descontente que jura deixar o Brasil a qualquer custo, cria surpreendentes situações psicológicas entre pessoas cuja mentalidade política degenerada pela corrupção em nada se assemelha ao racionalismo do cotidiano daqueles que não participam do poder. As pessoas cujas preocupações estão focadas nas tarefas do trabalho, assumem o perfil de seriedade condicionado pela imposição ética das relações sociais no respeito as normas. Do outro lado, aqueles cuja sobrevivência está deformada pelo privilégio de benefícios oligárquicos e com um comportamento marcado pela bajulação ardilosa, pela malevolência capciosa. Esta diferença define a paisagem humana em que se move o romance.

O autor recria episódios da vida nacional com sua própria nomenclatura, sempre citando nomes fictícios para personagens reais, permitindo assim botar na boca de seus personagens as palavras que caracterizam o perfil psicológico que conhecemos da mídia.

Mas o que é realmente a “insondável matéria do esquecimento?” Ao apresentar episódios da vida nacional totalmente esquecidos pela academia e mídia, o romance tem como background nosso descaso com o Brasil na medida em que nos dedicamos a imitação do exterior e sequer imaginamos o fecundo conteúdo de nossa identidade abandonada. Para provar isso, o autor dedica alguns capítulos para reaviar nossa memória com obras de personalidades importantíssimas da nossa história que são uma lição para estes tempos bicudos.

Se o lado oficial das práticas governamentais consiste em mudar tudo de tempos em tempos: nomes de instituições, órgãos reguladores, impostos, ministérios, departamentos e até a sintaxe da língua, que o autor chama de operações proteiformes, a causa invisível é a necessidade de fazer de conta que se muda, e ao mesmo tempo, conservar os males existentes que são as causas da necessidade de mudança. Se o Brasil fosse o guardião das regras do futebol, a cada dois anos haveria modificação nas regras pelo simples desacordo constante entre clubes e federações. E hoje o jogo seria disputado por equipes com o dobro de jogadores de cada lado, com substituição obrigatória para atender aos requisitos dos diretores dos clubes, as traves seriam maiores, o tamanho do campo também e a duração da partida não haveria de ficar no convencional. E as faltas? Bota aí uma nova diretriz. Mudem-se os pênaltis, e assim por diante. Esta ideofrenia pela mudança das convenções comumente é comandada por pessoas que se dizem conservadoras. Não sobra ao escritor outro recurso senão a sátira demolidora, o humor lampejante capaz de iluminar o conhecimento de nós mesmos.

Sabendo que é muita coisa para um volume só, o autor já deu início ao segundo volume.

O livro pode ser obtido em papel através da editora neste link.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Ópios e Rodopios nos Trópicos

"Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo

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O Último Barroco

Um grupo de estudantes gravitando em torno de uma república chamada Amarelinha tem na irreverência a agregação potencializadora de expectativas que buscam a satisfação de conflitos existenciais.

Em linguagem ornamental, o livro vai revelando o autor como "o último barroco” por ressuscitar um passado parnasiano perdido na correria do progresso, extraviado em meio à comunicação verbal direta e sem brilhantismo que segue as transformações tecnológicas impostas pela agilidade do viver.

Em um mundo de mensagens abreviadas, de manchetes e chamadas curtas, faz algum sentido retomar o exercício da fala rebuscada e erudita? O livro mostra que não pode haver erudição em literatura sem que a própria linguagem seja sua expressão vibrante.

Inicialmente, um texto tão prolífico pode causar estranheza, mas o leitor logo percebe que o exagero associado à exuberância existencial é próprio de quem leva o inconformismo para a realidade do agir e sentir.

Que tipo de inconformismo se pode esperar de uma sociedade arcaica senão reagindo com violência verbal? Na atmosfera asfixiante do regime militar de então, o único recurso era a retórica debochada, o riso sarcástico, a ironia sardônica.

A busca do novo, a vontade de ser outro, de estar longe, com outra gente, e valores diferentes dos convencionais, foram o substrato de toda aquela geração universitária.

O conflito entre o indivíduo e uma sociedade medíocre, que reduz a inteligência a cinzas, a fugas de alívio e contentamento — arte culinária e prostituição, música clássica e jazz, álcool e cigarros, repressão e medo, boemia alucinada —, atravessa o livro com extravagância até desembocar no romance entre uma pintora e um estudante que se envolvem num rodopio de paixão instantânea, seguido de solidão e desencontro.

A ausência se traduz em amor na solidão, no desejo do reencontro, no fim de curso, de época, de um tempo que nunca mais voltará.

A busca do novo, a vontade de ser outro, de estar em outro lugar com outra gente, com outros valores diferentes dos convencionais são o substrato de toda uma geração universitária.

Estamos vivendo uma época que vai repetindo o passado assombrosamente. Vivemos de fracasso em fracasso, como cantava Nelson Gonçalves na canção de Mário Lago. Nela, o fracasso é não poder se esquecer de um amor — "fracasso por compreender que devo esquecer / fracasso porque já sei que não esquecerei / fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal / por te querer tanto bem e me fazer tanto mal". Em nosso momento histórico, por esquecer o que passou e nos querer tanto mal a ponto de repetir os mesmos erros.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Viva o Povo Brasileiro

"Retirado en la paz de estos desiertos,
com pocos, pero doctos, libros juntos,
vivo en conversación com los difuntos
y escucho com mis ojos a los muertos"
Quevedo

Aos poucos vai se tornando um clássico da literatura brasileira. A ambição de João Ubaldo foi traçar a saga da formação do povo brasileiro através da gênese da miscigenação racial no período colonial. Iniciando na Independência do Brasil, na figura do alferes Brandão Galvão, amaldiçoado pela família, que mata um escravo para se cobrir de sangue, e que o utiliza para fazer os emplastros dissimuladores de ferimentos enquanto aguarda escondido o desfecho da batalha, e que se associa às forças vitoriosas para ser condecorado como herói da Independência.

A história começa com uma farsa. Ubaldo nos apresenta a construção de um país pari passu com a acumulação de riqueza através da falcatrua, da negociata, do esbulho e da corrupção. Tudo isso poderia fazer com que a obra não saísse de um romance convencional, não fosse o fato de Ubaldo apresentar uma narrativa que está impregnada com as lantejoulas de nosso barroco verbal precioso, há muito tempo abandonado pela influência preguiçosa da literatura norte-americana.

A contrapartida da fraude institucionalizada transparece na natureza do caráter do brasileiro bem-sucedido da sociedade colonial, em um mundo onde tudo é possível: a lei só existe para os mais fracos e as disputas são resolvidas nas maquinações ardilosas. O alferes Brandão Galvão se apossa dos bens da família, expulsa do país os fiéis do império para Portugal, e coloca sua máquina de produção de açúcar em movimento, contratando para isso um contador, que ardilosamente vai desviando capital para si e que, ao fim, irá dilapidar seus bens através de fraude contábil, e se apossar de sua fortuna quando da morte do alferes, construindo uma nova dinastia de senhores de engenho e negociantes, cujos três descendentes se dedicam ao mundo das finanças, ao clero e à vida militar na figura do general Macário, combatente e herói da guerra do Paraguai.

No plano do povo, temos a saga dos escravos, a história de personagens extraordinários, como o nego Budião, que luta como voluntário na revolução farroupilha, convocado por uma organização semiclandestina chamada justamente Povo Brasileiro. Do estupro do Alferes Brandão com uma escrava, nasce uma menina que anos depois assistirá sua mãe ser assassinada ao se defender de uma tentativa de estupro com um borzeguim, e deste choque se tornará a líder do povo que haverá de resistir às injustiças e lutar pelo fim da escravidão. Maria da Fé é assim uma personagem mítica e real, misteriosa e portadora das aspirações de um povo esquecido em uma sociedade incapaz de conseguir um lugar para a ilustração e o iluminismo que sacodem o mundo no século XIX. Coagulados no mundo colonial mercantil e oligárquico, os personagens de Ubaldo Ribeiro são envolvidos em uma saga pelos meandros da história brasileira do século XIX, e vão intercalando episódios datados em um vaivém cronológico onde são retomados a cada conjuntura, permitindo tramar a história como seres atuantes nos destinos do Brasil.

A Irmandade do Povo Brasileiro avança até Canudos, ápice final do século XIX e ponto de inflexão acerca de nossa crise vazia de princípios, impotente em traçar destinos que não seja o do estado ordenador e ao mesmo tempo excludente. Ubaldo não aceita a teoria comum de que o sertanejo (termo que ele não usa, pois seu ponto de irradiação é a ilha de Itaparica e sua cultura litorânea) seja um povo imerso em uma cultura de misticismo e superstição, que por si só seria capaz de criar somente uma figura profética como elemento de aglutinação, mas jamais um caudilho político revolucionário e ilustrado. Prefere mostrar que o sertanejo é um povo que, não obstante sua exploração e desmandos, ainda mantém intato um discernimento racional sobre seu papel e destino. Tese duvidosa, pois a natureza da infindável crise brasileira está justamente em recusar a modernidade em troca da opção ilusória por uma sociedade onde o mundo colonial possa permanecer intato, bastando para isso que o estado seja redistributivo e assistencialista.

O horror à mudança pode estar fantasiado no desejo de mudar, principalmente naquelas condições lampedusianas onde não se sabe o caminho a traçar, as etapas a serem cumpridas, uma vez que as sociedades evoluídas se distanciaram do Brasil também por caminhos empíricos, embora cristalizadas em princípios da liberdade proporcionada pela luta contra a hierarquização da Contrarreforma que acabou tendo seu alvo dirigido contra o estado.

Nada disso ocorreu por aqui. Passamos do colonial ao marxismo, e os valores liberais ficaram sepultados na demonstração satírica eloquente de Joaquim Manoel de Macedo que, em 1868, reescreveu Dom Quixote ao estilo brasileiro em seu livro: 'Memórias do Sobrinho de Meu Tio'. O gênio do compadre Paciência em Macedo se reflete no general Macário de João Ubaldo Ribeiro: personagens que entendem o Brasil e nada podem fazer por ele, pois se agigantam as forças do atraso de forma tal que o progresso não tem lugar em qualquer perspectiva que não seja a de manter o veneno estatal jorrando intocado.

O livro de Ubaldo deveria encerrar no capítulo XVIII, quando os episódios do século XIX se encerraram. Mas Ubaldo resolve avançar para o século XX em apenas 1/9 de sua narrativa, criando 3 episódios que poderiam servir para um novo volume: quem sabe uma trilogia se dividisse ainda mais, posto que aí já estamos na página 612, e os dois capítulos subsequentes são riquíssimos no entendimento da projeção do século XIX no século XX com apenas 60 páginas. Talvez este último volume já não pudesse mais conter o mesmo título do primeiro, onde o “Viva” teria de ser substituído pelo “Abaixo”.